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Coluna

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Mais que memória por Ernesto Cassol

Confira:

Por: Ernesto Cassol

“As guerras não existem apenas no mundo. Dentro da Igreja há também uma guerra de baixa intensidade. Ela fez muitas vítimas, com os instrumentos adequados da guerra religiosa, escondidos sob palavras, não raro, piedosas e espirituais. Só para dar exemplo pessoal: quando fui condenado pelo então cardeal Joseph Ratzinger em 1985 por causa do meu livro “Igreja: carisma e poder”, foi-me imposto o que ele denominou de “silêncio obsequioso”.

Esse eufemismo implicava muita violência: deposição de cátedra, remoção de editor religioso da Vozes, da redação da “Revista Eclesiástica Brasileira”, proibição severa de falar, dar entrevistas, escrever e publicar sobre qualquer assunto. Obviamente “obsequioso” não possui nada de obsequioso.

O mesmo ocorreu com o teólogo da libertação Jon Sobrino, de El Salvador, condenado em fevereiro deste ano. Recebeu apenas uma “notificação”. Esta inocente palavra, “notificatio”, esconde violência porque ele não pode mais falar, nem dar aulas, conceder entrevistas e acompanhar qualquer trabalho pastoral. O vitimado por uma condenação é “moralmente” morto, pois vem colocado sob suspeita geral, tolhido, isolado e psicologicamente submetido a graves transtornos, o que levou alguns a terem neuroses e um deles, famoso, perseguido por ideias de suicídio.

Tanto ele como eu fomos, no mínimo, caçados e anulados, pois um teólogo possui apenas como instrumento de trabalho a palavra escrita e falada”. (Fonte: BOFF, Leonardo. BENTO 16 E A GUERRA NA IGREJA. Folha de São Paulo, 13 de maio de 2007, p. A 12).

Dia 24 de fevereiro de 1954. Após rápido café, meu pai montou no zaino Rúbi, ajeitou a mala no arção da sela e fomos “pegar a linha” na Estrada Geral na capela São Caetano, 7 horas da manhã. Mano Augusto e eu acompanhamos a pé. Augusto voltaria com o cavalo. Meu pai e eu seguiríamos de ônibus ao Seminário SALETTE, Marcelino Ramos. À entrada, encimada pela palavra LOCUTÓRIO, veio nos receber Panchito, rapaz magro (faquir branco), pálido, óculos de vidro, polido, que chamou um padre, de óculos, batina negra, crucifixo ao peito. Meu pai conversou um pouco, eivado de sotaque vêneto, pagou 750 réis anotados numa cadernetinha.  O padre chamou “o anjo da guarda”, rapaz forte, uns 16 anos, cabelo curto, dourado, crespo espesso. Antonio Dal Bello pegou a mala – meu pai despediu-se sobriamente abriu a porta e me vi num imenso corredor com portas em ambos os lados. Na porta da frente, letreiro WATER CLOSED. Era o quarto-escritório do Pe. Superior, Franscisco Allard, americano.

Dall Bello carregou minha mala numa escadaria larga até o dormitório, 3º e último piso. No 1º andar, frente a quem subia, alto meio metro, relógio badalaria de hora em hora (tantas pancadas tantas horas) pelos próximos 7 anos, resmungando ritmicamente, marcando saudades, insônias, dores e temores, soturno, impiedoso. Centena de camas ladeadas por mesinhas estendiam-se uniformes vigiadas por pombal que subia até três metros de chão guardando nossas malas cada qual no seu casulo. Meu “anjo”, algo nervoso, conferiu meu ROL (esquisita palavra, em casa ninguém conhecia, mas o Padre Vigário Clorário Caimi, pacientemente explicara a meu pai, significava LISTA, lista de roupa que deveria providenciar. E minha mãe tomara o trem em Canavial, viera a Boa Vista (de Erechim), parara na Casa do irmão Eugênio Isoton e com o dinheiro do trigo comprara ROL de roupa, sapato, chinelo, chapéu, carpim. A. Dall Bello ia me explicando o funcionamento do Seminário, regulamento, os lugares (dormitório, capela, sala de estudo, de aula, refeitório, silêncio, códigos, pudicas medidas ao levantar e deitar, lavabo… E três palavras esquisitas se intrometeram na minha cabecinha de 12 anos: ROL, LOCUTÓRIO, WATER CLOSED (esta demorou para ser entendida).

Meu “Anjo” repetia: Aqui tudo por sineta, apito, licença, missa, café, recreio… tudo em silêncio, comunicação “digital”, salvo ocasião especial quando o Padre Vigilante outorgava BENEDICAMUS DOMINO ao que centena de chilreios e regougos replicava DEO GATIAS, graças a Deus podiam irromper em conversa, risada, agitação. Seco tilintar num copo e o Padre Vigilante, em mesa especial, estrado meio metro acima da turba juvenil, impunha silêncio para leitura da “Imitação de Cisto” (Thomas de Kempis) ao almoço. No café da manhã, pela ordem, um veterano lia o santo do dia “Na Luz Perpétua”. No almoço e janta, em sequência, um veterano lia alguma obra escolhida pela direção à silenciosa plateia juvenil. Recordo a trilogia de Raoul de Navery: O Menino Azul, Sepultada Viva e João Canadá. Obras de Karl May, Na Cordilheira dos Andes. Dom Quixote acarretou irreprimíveis risadas. Após almoço, em fila indiana, rumava-se ao Santuário gorgolejando MISERERE MEI. Pré Vaticano II, a multidão de coloninhos papagueavam latinório com sotaque vêneto, alemão, polonês ensejando trocadilhos simploriamente chistoso naquele ambiente planejadamente escasso de comunicação com “ambiente mundano”. Norma habitual, ninguém de minha família me visitou ao longo de 7 anos, exceto meu pai avisado de que eu estava mal de saúde. Levado de gipe ao hospital em Marcelino Ramos, mal fechara a porta do consultório, o DR. Silveira levantou-se, esticou os olhos e diagnosticou: “Mas, este rapaz está com sinusite”. E já, já receitou bafos sob toalha. “Segurem o máximo que ele aguentar”, ordenou aos dois colegas que me sustinham. Lá por final de 1959, fato “peregrino”. Fomos a passeio na propriedade de Antonio Bruschi. Distava 4 quilometros da casa dos pais. Ousei pedir permissão ao Padre que nos acompanhva. Surpresa: Vai, tenha cuidado, mas, esteja aqui de volta a tal hora (O local do passeio distava uns 15 quilômetros de Marc. Ramos). Por estradas e potreiros, me esgueirando de cães e bovinos, cheguei. Nem os cachorros pressentiram minha chegada totalmente imprevista. Estavam na roça com todo mundo para onde minha mãe despachara, almoçamos, fez cardume de perguntas (estava bem? Não passou frio? Tinha roupa? Essa calça está muito curta…) Mas, logo, logo, devia retornar, sem esperar descessem do morro, em marcha acelerada para alcançar a tropa que voltaria do passeio pelo leito da ferrovia. Num misto de nirvana e cansaço pela maratona de 30 quilômetros meu sono fantasiou, meu pai, irmãos, os cachorros, as galinhas, o antigo hábitat…

PARTE DOIS

Arrependido de “ir a padre?” Quando dissera sim a meus pais, insuflado por meu professor Ari Marafon, também concordara meu pai fosse tratar com Pe. Caimi. O Vigário alegrou-se, remeteu alguns textos “celestiais” que embalaram minha fantasia. A realidade logo despencaria do paraiso. A rotina de reza, estudo, trabalho, algum esporte, num universo engaiolado, embatinado, masculinizado, num relacionamento nada familiar, eivado de temor de Deus, dos Padres e mesmo colegas falquejaram a crença na vocação selada por Deus fora da qual não haveria salvação. E logo nos primeiros dias, para cimentar este imutável decreto divino um padre estranho nos pregou três dias de “retiro espiritual” em que o terrível prato principal eram os “novíssimos (últimos) fins do homem”. Vontade de voltar para casa? Sim, mas eu concordara. Seria covardia. O que outros diriam? Prof. Ari fora seminarista e desistira. Quando insistiu para ”ir a padre” (o Ernesto é inteligente) não estaria inconscientemente buscando vítima substituto? Profunda angústia me dilacerava entre o imperativo da “vocação” com que Deus misteriosamente me “brindava” para “salvação do povo” e meu adolescente desabrochar humano agravado por monumental incompreensão e despreparo em lidar com juventude arrancada da convivência familiar, da convivência do clã e classe social, emagueirado numa caserna eclesiástica, obturados os poros da espontaneidade por normas, 10 mandamentos de Deus, 5 da Igreja, Estatuto, Regulamentos, o pecado ou a dúvida me ameaçando com o inferno (sem desconto!), confessando constrangido alguma pulsão perfeitamente natural (“adentro ao altar do Deus que alegra minha juventude” soava sádico…) tendo como paradigma São Luiz Gonzaga, Estanislau Kotska, “guiado” por “gurus” como Thiämer Toth, J. Berthier (alguns escritos deste pregador popular, saletino fundador da Sagrada Família, constituem notável “Manual de Misogenia”…, Pe. S. M. Giraud (Do Espírito e da Vida de Sacrifício no Estado Religioso, básico no noviciado em União da Vitória, Bairro São Cristóvão, 1961. Constrangimentos infernais: Como comungar? Talvez estivesse em pecado! Não ir deixar outros passar? Que pensarão? Pior: Se morresse de repente acordaria num pavoroso caldeirão de fogo? As lembranças da roça nova queimando, labaredas infernais lambendo ares e árvores, o forno, o fogão… ir correndo encontrar padre onde despejar a suposta infernal sujeira? Que vergonha perante “toda a comunidade”. Em todo o internato habitualmente não havia mulheres. Desaconselhava-se mesmo a visita de mães e irmãs. Ao lado havia casa com algumas freiras e várias juvenistas. Estas frequentavam o Cristo Rei na cidade e trabalhavam parte do dia na lavanderia e arrumação da roupa de mais de centena de seminaristas e umas duas dezenas de padres, irmãos. A roupa era levada por pequena equipe no início da semana e buscada no fim. Já a cozinha era contínua ao Seminário. Porém, a comida era transportada por um mecanismo giratório de madeira, cilíndrico, encravado na parede, eixo (cilindro) vertical sustentando “casulos” onde depunham a comida (peça extremamente emblemática!). Panelas e pratos era remetidos cheios e devolvidos vazios. Comunicação verbal ocorria através de tubo recurvo. Uma parte falava (alto), o receptor colava ouvido e replicava e assim alternadamente, receptor e emissor mutuamente invisíveis. (Alguém tem foto de tão simbólico engenho?).

 Lá por 1958 verificou-se uma Revolução num potreiro entre a ferrovia, o rio Uruguai e o Teixeira Soares, lado Marcelinense. Em grupo grande no caminhão dirigido pelo Irmão Italvino Giacomet fomos cortar trigo numa “Terra dos Padres” no Teixeira Soares (A sustentação material provinha da alguma vacas, porcos, galinhas, pomar, trabalho dos irmãos leigos e alguns contratados, toda uma estrutura. Mas, o principal provinha de doações que o Irmão Jean Creff obtinha de pessoas e empresas, em incessante perambular. Seria muito conveniente detalhar esta ação junto aos “benfeitores (para os quais rezávamos) como se realizava na terra o “divino projeto. Como dizia, no final da estafante jornada foi-nos liberado nos banhar no Uruguai (trouxemos calção) e jogar bola num campinho abaulado naquele potreiro. Alguém ousou revolucionariamente pedir para jogar de calção. Chovera dias antes, o “campo” abaulado não comportava alternativa. Expectativa… e veio o sim e algumas recomendações logo estranguladas por comemorativa algazarra. E nós jogamos, “pés descalços, braços nus!”, embarrados, zero consciência da nova etapa da “revolução mundial!”.

Os encargos e trabalhos eram ciclicamente alterados. Na década de 1960 a ficha que vivia engasgado tentou cair. O Pe. R. Basso, farto de constatar que a grande maioria de seminaristas desistia de tão sublime vocação, propôs que a finalidade da Escola Apostólica não priorizasse a formação para o sacerdócio. Era quase um cavalo de pau na finalidade do seminário e da Congregação Saletina. Não vingou e o Pe. Basso tomou rumos próprios. Extremamente revelador, este Processo demanda atenta análise. O Marcelinense Ricardo Conceição, em TCC, esboça estudo digno de toda atenção a respeito.

PARTE TRÊS

Em meados de 1960 de 30 na entrada se reduzira a uns 10. E eis então a Direção me designou Bedel Geral, isto é, eventual ausência do Vigilante, cabia-me atender a adega (vinho aos padres) e buscar pão na padaria. Eis que senão quando, num sábado calorento tocou-me transpor vinho de laranja (algum benfeitor doara) de garrafão para garrafas, o que foi feito através de manga que, inexperiência minha acoplada à pouca adequação do instrumento, desviou parte goela abaixo. E devido à também deficiente resiliência do resiliente, este foi acometido de tenaz sonolência refratária a qualquer insônia. Era pela hora de Ave Maria. Com resíduo de lucidez se encaminhando para entropia, discerni: Após a janta (interminável), a turma saiu, eu escapuli para devolver o que não devia ter recebido… “Vou descansar um pouquinho”! Cabia-me puxar a Oração da Noite no posto “Coice da Tropa”. Escolhi cama ao fundo do Santuário, longe da vista da multidão. Eis que repentinamente o Pe. Vigilante e alguns colegas invadem o recinto, brabos e preocupados: “Te procuramos por toda parte, o que está acontecendo? ” O bafo de onça que se evolava, não obstante minha impotente e nebulosa ordem, prescindiu explicações. a tropa se recolhia ao dormitório, mas, o Padre, em sua sala, com voz trêmula, exigiu explicação. Minha retórica resposta não planejada se expressou por irresistível desabar de cabeça. Assim findou aquele dia… Dia seguinte, na Hora da Oração e Avisos antes do almoço, o Padre, com incandescente gravidade assim falou: “Lamento muito que considerara que nomeara para Bedel alguém prestes a ir ao Noviciado, competente, responsável, exemplo para todo mundo”. Mas, fora enganado. E citando eufemisticamente o “crime”, determinou pública e solenemente minha demissão e a entrega das chaves da adega “aqui e agora”. Do fundo da sala caminhei até a frente onde depositei em mãos que não me olharam o símbolo de Baco. E pela última vez voltei àquele lugar, sem olhar os lados do “corredor polonês” cujos olhos me flechavam (imagino!). Resultado da “epopeia”, a Nota de comportamento despencou.

Não obstante, após investigação do “Conjunto da obra”, fui admitido ao Noviciado. Em São Cristóvão, bairro de União Vitória, três castigos me deprimiam: 1). Palestras e leituras místico-normativas balizadas pelo S. M. Giraud (Do Espírito e da Vida de Sacrifício no Estado Religioso). Hoje, à distância, me parece deprimente angelismo masoquista (Obvio, Pe. Adriano Franzon, Mestre da turma, comungava desta visão (ou ao contrário?), lastreada em tradição mística que credito mais ao pe. Alberto Allaman. 2) Pulgas, mosquitos e cavalos tilintando cincerros noturnos, soltos, no bairro charcoso e pobre. 3) Trem e turbilhão de fumaça e ferros rachando a madrugada enevoada do Iguaçu rente. Mas, se Deus o quer, quem se oporá arriscando a salvação? Que valia ganhar o mundo e perder a alma? Era imperativo ter fé e esperança que a graça de Deus, ao qual tudo imolaríamos em vida pelos votos (juramento) de Pobreza, Castidade e Obediência em prol da redenção da humanidade, como o “Divino Cordeiro”. Destarte, em janeiro de 1962, nos prosternamos e garantimos Pobreza, Castidade e Obediência por três anos, vida de sacrifício pela Salvação, qual novo Isaac, tudo regrado pela Congregação Saletina e pela “Santa Igreja”. Todavia, no íntimo, latejava mais temor que amor, murohamente buscava-se esculpir simbiose de monge e apóstolo para levar a Mensagem do Evangelho e da Virgem da Salette de “reconciliação” dos pecadores numa sociedade que desconhecíamos, nenhum nexo real nos ligava, a quem a priori taxávamos de “mundana”…

A opção formal pela vida religiosa como oferta da própria vida através dos votos de pobreza, castidade e obediência radica-se nas profundezas da experiência religiosa histórica e como tal demanda convicção solidamente resultante de vida madura testada na experiência pessoal e em comunidade. Nada disso me era maduro. Verdade, os votos eram provisórios. Mas, recrutar humildes coloninhos adolescentes, mantê-los em formação rigorosamente encaminhada à vida religiosa consagrada e ao sacerdócio era forçar em alguma etapa da caminhada existencial não só a acidentes e desistências, mas a verdadeiros desastres. E quanto mais avançasse maior o risco. E como jurar aos vinte e poucos anos o sacrifício vital definitivo sem conhecer a força, o desejo, as condições que se teria no futuro! Seria tentar a Deus, assinar cheque em branco definitivo e… desnecessário.

Em 1965, cursando 2º ano de Teologia no Studium Thelogicum dos Claretianos (Cursara 2 anos de Filosofia no Convento Bom Jesus, dos Franciscanos, Curitiba, – Duns Scotus, Bacon -…) com grande angustia e indecisão prorrogara os tais compromissos por mais um ano, último prazo. Após matutar e conversar, tendo nítido o que não queria, decidi o grande salto… sem ter integral certeza se o paraquedas abriria. Em 13/11/1965 disse finalmente adeus ao Instituto Salette, ao estado religioso (votos e vida comunitária) e caminho do sacerdócio. Ajeitara precário emprego (meu latim não dava para mais) e fui acolhido numa pensão água furtada, Rua Emiliano Perneta, 420, Curitiba, pelos amigos Valdir, Avenildo e Davi, também egressos. A direção de vida sofrera (ou gozara?) sofrenaço cavalo de pau. Quase espatifei no real como meus citados colegas e tantos outros. O Diretor do Instituto Salette, Santo Rossetto, generoso, me emprestou 40 cruzeiros que viraram doação quando fui devolver 3 meses após.

PARTE QUATRO.

Ao depois, a novela da vida envereda para drama em todos os aspectos que deixo de tratar para costurar considerações finais nesse rascunho:

  1. “Alguns vários” colegas exultam: “O Seminário foi uma boa. Não fosse o Seminário estaria na roça.. O estudo me possibilitou profissão e nível de vida, além de princípios, disciplina”. Trata-se, rebatem meus botões, de solução individualista, egoísta que preserva estruturas sociais de desigualdade. E deixa de questionar a colossal vida artificial, afastamento da família, da convivência social, com mulheres, de manutenção e formação próprias. Deixa de questionar o tipo de formação cientifica, psico-emocional, além de demandar a construção de enormes estruturas materiais e normativas (Vide O VATICANO POR DENTRO, do Pe. Th. J. Reese) que de uma forma ou outra, a coletividade sustenta. Seria muito conveniente respeitosa e rigorosa apuração das desistências desta vida e do exercício do sacerdócio e as implicações (os dados existem, sobretudo nos arquivos do Vaticano e congregações. Importa extrair as melhores lições!).
  2. A própria razão de existir do Instituro Salette, da Congregação carece de apresentar mais solido embasamento cientifico, ao menos a seus membros potenciais. É a questão matriz essencial sem a qual não se define projeto de vida e de sociedade por mais empenho e mesmo heroísmo inquestionável. O fenômeno das Aparições precisa ser comunicado e tratado da melhor maneira humanamente possível e não servindo o prato pronto das inquestionabilidade da aparição e da Mensagem. O milagre é possível? O que Salette traz que já não está incluído no Evangelho, Bíblia, magistério (oficial) da Igreja? Por que servir-se de pessoas humildes (Salette, Fátima, Lourdes…) e cochichando segredos se esta Igreja (papa e magistério) são os representantes únicos de Cristo que se apodera da mensagem, decide da veracidade e da gestão das supostas aparições? E não parece procedente alegar a priori que Deus quis dar lição (mais uma) aos homens (e à hierarquia da Igreja supostamente escolhida por Ele) para incutir humildade, etc., etc… e onde os critérios (de nomeação) da mãe (biológica) de Jesus como embaixadora? Sabemos abundante e qualificada literatura e fontes a respeito, desde Renan, Duquesne, Thomas Reese, Cedoc, Krischke, P. Lessourd, C. Paillat, B. Ehrman, Anne Bernet, David Yallop… “Finalmente doze membros se pronunciaram em favor da realidade da aparição, três emitiram um voto negativo julgando as provas fornecidas insuficientes, apenas um, o cura de São José, se pronunciou formalmente contra a realidade da aparição. Desde o mês de janeiro seguinte, o bispo preparoiu um julgamento doutrinal positivo, mas desistiu de divulga-lo no curto prazo, sem dúvida porque o Cardeal de Bonald, arcebispo de Lion, de que era bispo sufragâneo, discordava do mesmo. Por outro lado, alguns meses após, o cônego Rousselot publicou, sob o título A VERDADE SOBRE O ACONTEIMENTO DA SALETTE, o Relatório que redigira com o cônego Orcel. A obra começava por uma “Autorização” de Mons. De Bruillard, com data de 15 de junho de 1848, onde este, pela primeira vez, se pronunciava publicamente em favor da autenticidade da aparição, sem, todavia, emitir um julgamento solene. Mons. De Bruillard concluía citando o adágio: “O verdadeiro pode não ser verossímil” e citando a quantidade de 100.000 peregrinos já vindos à La Salette. Cabe registrar também que na mesma época Mons. De Bruillard autorizou a criação da Confraria Nossa Senhora Reconciliadora dos Pecadores, vocábulo que se tornará o título litúrgico da Virgem de La Sallete. Ele nomeará também em 1849 interlocutores para a compra do terreno da aparição com a previsão da construção de um santuário. Todas estas inciativas favoráveis precederam o julgamento doutrinal.

Finalmente, na data de 19 de setembro de 1851, Mons. DE Bruillard publicou uma pastoral destinada a ser lida em todas as igrejas da diocese, mandamento em que ele proclamava de maneira solene a autenticidade da aparição: ela “carrega em si mesma todas as características da verdade, e que os fiéis tem fundamento a crê-la indubitável e certa (1)”. Cabe notar que antes da publicação pastoral, os dois videntes cada qual puseram por escrito seu “segredo”. Os textos do mesmo foram remetidos ao papa Pio IX em 18 de julho” (Fonte: CHIRON, Ives. ENQUÊTE SUR LES APARITIONS DE LA VIERGE. Editions Perrin/Mame, 1995, p. 187). E página adiante: “Essa aparição de La Salette marcou os espíritos da época, sabe-se quanta influencia ela teve sobre os grandes escritores católicos: Louis Veullot, Léon Bloy, Huysman e, após, Psichari, Maritain, Claudel, Massignon”.

Uma palavra sobre o principal: A questão dos votos religiosos de Pobreza, Castidade e Obediência. O sentido é comprometer todo o ser por toda a vida como holocausto a Deus numa concepção proveniente desde o Antigo Testamento. (Lembra o “sacrifício incondicional” de Abrahão?). Estranho o Deus de “Amor” exigir sacrifícios que implicam o sacrifício (morte, destruição) de seu(s) filho(s) bem amado(s) como no melhor figurino das mitologias pagãs. Ora, tais votos carecem de questionamento à luz também da dimensão histórica. Convém adolescentes interioranos reclusos emitirem compromisso de castidade e celibato tolhendo o potencial de vida afetiva e/ou familiar com grave dano potencial a si e à sociedade? Como pode o inexperiente jovem prometer o que não sabe se poderá e quererá cumprir no futuro? Para que impor e se impor tamanho compromisso sob as severíssimas penas de grave pecado e dano eterno (vítima fatal da própria crença injetada e absorvida ao longo dos “verdes anos de formação resguardada do mundo”. E para que tão monstruoso masoquismo? (Idêntico raciocínio se aplica ao universo feminino”).

Consequentemente, a solução nodal para quem crê assim está em retirar esta exigência. Quem quiser (e puder) casar, prescindir do celibato siga em frente (Lutero e outros assim preceituaram e agiram. Claro, adaptando-se os cânones das atuais comunidades religiosas separadas (Marcolinos e Felizbinas). “A medida que as comportas se abriam no mundo todo, era incrível ver a frequência com que as atividades dos padres pedófilos remontavam a vinte, trinta ou até quarenta anos atrás. É inconcebível que apenas suma geração particular de padres, que ingressaram nas ordens religiosas no final da década de 1950 e na década de 1960 fossem mais ou menos inclinados à pedofilia do que a geração anterior ou posterior. Os tradicionalistas culparam o aumento de abusos às reformas do Concílio Vaticano II, mas, eles ainda não revelaram a causa da pedofilia cometida por membros do clero anterior a meados da década de 1960. Fica-se com a possibilidade apavorante de que, não fosse o caso do irmão Gauthe, o “sistema secreto” continuaria a funcionar eficientemente, com muitas novas vítimas sofrendo abuso” (Fonte: YALLOP, David. O PODER E A GLÓRIA: o lado negro do Vaticano de João Paulo II. SP, Editora Planeta do Brasil, 2007, p. 336).

A questão da pobreza…. Óbvio, precisa produzir bens para viver e viver bem, sem apego. Para tanto importa produzir instrumentos e estruturas (sistemas) justas e eficientes (sobretudo, é questão de amor às futuras gerações além da relação de sangue e tempo_. Sem apego exagerado, porém, sem parasitar na esmola, na filantropia. A essência consiste na busca da Justiça (Lênin repetia!).

O voto de obediência “não está com nada” (ou quase!). Já se viu renunciar a compreender, a decidir (razão, essência lógica do ser humano)? Claro, nem sempre deve imperar minha visão. Contudo, simplesmente “votar” cheque em branco, não nominal, sem data? … predispõe à dependência cega mesmo porque dispensa de pensar, assumir responsabilidade, decidir, características da estrutura militar (São Paulo e Inácio de Loyola tem muito a ver) e do fascismo (inclusive no machismo monárquico da Igreja).

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