O custo invisível dos antibióticos pode gerar conta bilionária para o agro
Segundo a FAO, a resistência antimicrobiana pode provocar perdas de até US$ 318 bilhões para a pecuária global em 15 anos.
Durante décadas, os antimicrobianos ajudaram a impulsionar a produtividade da pecuária mundial. Utilizados para prevenir doenças e, em muitos países, como promotores de crescimento, esses medicamentos contribuíram para aumentar a eficiência dos sistemas produtivos e atender à crescente demanda global por proteína animal.
No entanto, um relatório da FAO, divulgado na semana passada, joga luz no problema do uso excessivo destes medicamentos, uma vez que a mesma ferramenta que gera ganhos econômicos no curto prazo pode representar riscos para a sustentabilidade da produção animal nas próximas décadas.
De acordo com o documento, mantidas as tendências atuais, o uso de antimicrobianos na pecuária deve crescer cerca de 30% até 2040.
Nesse contexto, organizações e entidades de saúde pública internacionais vêm defendendo mudanças regulatórias mais rígidas. Discussão altamente relevante para o Brasil. Como um dos maiores exportadores mundiais de carne bovina, frango e suína, o país está diretamente exposto às exigências de mercados internacionais cada vez mais atentos à rastreabilidade, ao bem-estar animal e ao uso responsável de medicamentos veterinários.
Recentemente a União Europeia retirou o Brasil da lista dos exportadores alegando que o país não está em conformidade com os requisitos da UE sobre o uso de antibióticos durante toda a vida dos animais. O Brasil tem até o início de setembro para comprovar de forma documental o uso racional destes medicamentos e evitar prejuízos de US 1,8 bilhão.
Em uma matéria publicada recentemente no jornal inglês The Guardian, a Aliança para Salvar Nossos Antibióticos (ASOA), iniciativa internacional que promove o uso racional de antimicrobianos, pede ao Reino Unido a proibição da importação de carne produzida com uso de promotores de crescimento antimicrobianos, medida que busca reduzir incentivos ao uso dessas substâncias em cadeias produtivas internacionais, o que também pode vir a afetar às exportações brasileiras, que superaram os US$ 380 milhões em 2025.
O risco da resistência antimicrobiana
Em sistemas de produção intensiva, antimicrobianos são utilizados para tratar doenças, prevenir infecções e, em alguns países, ainda podem ser empregados para promover crescimento dos animais. A exposição frequente das bactérias a esses medicamentos favorece a seleção de microrganismos resistentes.
Quando um bovino, suíno ou frango recebe antibióticos, algumas bactérias sobrevivem ao tratamento e desenvolvem mecanismos de resistência. Essas bactérias podem se multiplicar e se tornar predominantes no rebanho, o que causaria prejuízos bilionários ao setor.
Do ponto de vista econômico, a conclusão da FAO é de as perdas acumuladas para a produção pecuária global podem alcançar US$ 318 bilhões até 2040 em um cenário de elevada resistência antimicrobiana. O valor é muito superior ao custo projetado para a transição rumo a sistemas menos dependentes desses produtos.
O desafio para governos e produtores está justamente na diferença de percepção entre os custos e os benefícios. Os investimentos necessários para reduzir o uso de antimicrobianos — como vacinação, biossegurança, assistência veterinária e melhoramento do manejo — são imediatos e exigem recursos. Já os benefícios aparecem ao longo dos anos, na forma de menor pressão sobre a resistência bacteriana e maior preservação da eficácia dos medicamentos.
Para os produtores, especialmente em países em desenvolvimento, a questão é ainda mais complexa. Em muitas regiões, os antibióticos continuam sendo uma alternativa mais acessível do que investimentos estruturais em prevenção sanitária. Sem apoio técnico e financeiro, a substituição desses produtos pode resultar em perdas temporárias de produtividade e aumento de custos operacionais.
Nesse contexto, o relatório da FAO recomenda uma mudança importante na forma de encarar a resistência antimicrobiana. O tema deixa de ser apenas uma preocupação sanitária e passa a ser tratado como uma questão econômica e estratégica para a segurança alimentar global.
Num cenário em que a América do Sul deve responder por quase 20% consumo mundial de antimicrobianos na produção animal até 2040, segundo as projeções da FAO., o Brasil se posiciona no centro das discussões sobre como aumentar a produção sem ampliar os riscos associados à resistência bacteriana.
Para um setor que precisará produzir mais alimentos para uma população crescente, a resistência antimicrobiana surge como um dos principais testes da capacidade do agro de conciliar produtividade, competitividade e sustentabilidade nas próximas décadas.