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Dor no quadril em mulheres pode ter causas diferentes em cada idade

Da virilha que incomoda na corrida aos 25 anos à fratura depois de uma queda aos 80, o mesmo sintoma costuma apontar para problemas distintos conforme a fase da vida.

Por: ASCOM
Fotos: Magnific

A dor no quadril raramente significa a mesma coisa para uma corredora de 28 anos e para uma aposentada de 78. Nas duas situações a queixa pode ser parecida, um incômodo que aparece ao caminhar, ao subir escada ou ao deitar de lado. A origem, no entanto, tende a ser bem diferente, e essa diferença muda tudo no rumo do tratamento.

Os números ajudam a entender por que a faixa etária pesa tanto. Levantamentos brasileiros apontam que a fratura de fêmur, uma das consequências mais graves dos problemas de quadril, tem maior ocorrência na Região Sul, com o Rio Grande do Sul à frente, sobretudo entre mulheres e pessoas com 80 anos ou mais. É um retrato que conversa de perto com municípios gaúchos onde a população envelhece em ritmo acelerado.

Só que reduzir a dor no quadril a uma questão da velhice é um erro comum. Um estudo com pacientes que já tinham indicação cirúrgica para a articulação encontrou que quase 80% deles tinham menos de 60 anos. O quadril dói cedo, e quando o motivo passa despercebido na juventude, ele costuma cobrar a conta décadas depois.

Antes dos 40, a dor que sobe pela virilha

Na mulher jovem e ativa, a causa mais frequente de dor no quadril não tem relação com desgaste por idade. O nome técnico é impacto femoroacetabular, um conflito entre a cabeça do fêmur e a borda da bacia que comprime estruturas internas da articulação a cada movimento mais amplo. A dor costuma se concentrar na virilha e aparecer sem que tenha havido qualquer trauma.

Estimativas internacionais indicam que cerca de 15% da população tem alguma alteração anatômica compatível com esse tipo de impacto, embora nem todos desenvolvam sintomas.

Entre quem sente dor, o quadro atinge principalmente adultos na segunda e na terceira década de vida. No subtipo conhecido como pincer, em que a borda do acetábulo é excessiva, o perfil mais afetado é justamente o de mulheres jovens.

A displasia do quadril, em que a articulação se forma com pouca cobertura óssea, é outra causa que aparece cedo e pode conviver com o impacto.

Em ambos os casos, esportes que exigem amplitudes extremas de movimento e rotações repetidas, como dança, ginástica e algumas modalidades de corrida, tendem a antecipar e intensificar os sintomas. Estalos, travamentos e uma dor que piora ao cruzar as pernas costumam ser os primeiros sinais.

O problema é que essa dor raramente é lida como um problema de quadril logo de cara. Na análise do médico de quadril em Goiânia, Dr. Tiago Bernardes, boa parte das queixas de dor inguinal em mulheres jovens é atribuída primeiro a estiramentos musculares ou ao esforço da rotina esportiva, e a articulação só entra na investigação quando a limitação já atrapalha o dia a dia.

A demora tem um preço. A literatura ortopédica trata o impacto femoroacetabular como uma das principais causas de artrose precoce do quadril.

Quando o atrito persiste por anos, ele desgasta a cartilagem e lesiona o labrum, o anel que estabiliza a articulação, abrindo caminho para um quadro degenerativo que, em outras circunstâncias, só apareceria muito mais tarde.

Na meia-idade, o desgaste começa quieto

A partir dos 40 anos a lista de causas se amplia. Mulheres que nunca tiveram impacto femoroacetabular passam a conviver com outras fontes de dor, muitas vezes mais de uma ao mesmo tempo.

A bursite trocantérica e a tendinopatia dos glúteos, que se manifestam como uma dor na lateral do quadril, costumam piorar ao deitar sobre o lado afetado e são frequentes nessa fase.

É também a idade em que o impacto femoroacetabular tende a dar as caras nas mulheres que não foram diagnosticadas antes, já que nelas o quadro costuma se manifestar a partir da quarta década.

Some-se a isso o início discreto da artrose, o desgaste da cartilagem que, no começo, se confunde com cansaço ou com dores passageiras depois de um dia mais puxado.

O peso corporal entra como agravante nessa conta. Cada quilo a mais aumenta a carga que a articulação suporta a cada passo, e o sedentarismo enfraquece a musculatura que deveria proteger o quadril.

A combinação de excesso de peso e perda de força muscular acelera tanto a tendinopatia quanto o desgaste articular que se instala em silêncio.

Esse acúmulo de causas possíveis é o que torna a meia-idade um período traiçoeiro. A mesma mulher pode ter uma tendinopatia tratável com fisioterapia e, em paralelo, um princípio de desgaste articular que pede acompanhamento.

Separar uma coisa da outra exige exame físico detalhado e exames de imagem, não apenas o relato da dor.

Depois da menopausa, o osso entra na conta

A queda do estrogênio que acompanha a menopausa muda a estrutura do osso. Com menos hormônio, o corpo reabsorve massa óssea mais rápido do que a repõe, e o resultado é a osteoporose.

Estimativas internacionais apontam que a doença atinge cerca de 15% das pessoas por volta dos 50 anos e chega a 70% depois dos 80, com forte predomínio feminino.

O agravante é que a osteoporose costuma avançar sem sintoma. Não há dor enquanto o osso enfraquece, e muitas mulheres só descobrem o problema quando ele já se traduziu em uma fratura. O exame de densitometria óssea é o que permite enxergar essa perda antes do acidente, mas ainda é subutilizado fora das grandes cidades.

No quadril, esse enfraquecimento se soma à artrose que avança com o tempo. A coxartrose, nome da artrose da articulação, deixa de ser um desconforto ocasional e passa a limitar tarefas simples, como calçar um sapato ou entrar no carro. A dor que antes aparecia depois de esforço passa a incomodar até em repouso, e a noite mal dormida vira queixa frequente.

A combinação é o que torna o pós-menopausa o momento de maior atenção. O osso mais frágil e a articulação desgastada criam o terreno para a complicação que mais preocupa, a fratura.

A queda que muda tudo

A fratura do colo do fêmur soma cerca de 100 mil casos por ano no Brasil, segundo a literatura médica, e atinge principalmente mulheres idosas após quedas domésticas aparentemente banais.

O Ministério da Saúde registrou 11.801 mortes de idosos por acidentes domésticos entre 2023 e 2024, com a queda como principal causa e maior número de óbitos acima dos 80 anos.

A gravidade não está apenas no osso quebrado. Estudos brasileiros mostram que a mortalidade em até um ano após a fratura de quadril no idoso pode chegar a 25%, um número que reflete as complicações da imobilidade prolongada e das cirurgias de urgência.

A reabilitação costuma ser longa, e nem toda paciente recupera a mesma autonomia que tinha antes da queda. É por isso que a rapidez entre o acidente e o tratamento conta tanto.

Quando a indicação é cirúrgica, a artroplastia, a substituição da articulação por uma prótese, é o caminho mais usado. Um levantamento com dados do DATASUS registrou 251.413 artroplastias de quadril no país entre 2012 e 2021. Só em 2023, segundo o SUS, foram mais de 28 mil próteses de quadril entre janeiro e novembro.

“As versões modernas do implante ultrapassam 15 anos de durabilidade na maioria dos casos, o que dá fôlego à decisão de operar mesmo em idades mais avançadas”, ressalta a equipe médica do COE, centro de cuidado ortopédico em Goiânia.

Por que o diagnóstico erra de alvo

O fio que conecta todas essas fases é a dificuldade de localizar a dor. O quadril irradia para a virilha, para a lateral da coxa e até para o joelho, o que faz muita gente tratar o lugar errado por meses.

Dor lombar e dor de quadril, em particular, se confundem com facilidade, e não é raro alguém passar por tratamento de coluna sem que a articulação seja examinada uma única vez.

Por isso, a avaliação com quem investiga o quadril de forma dedicada faz diferença em qualquer idade. Em capitais que concentram serviços de referência em ortopedia, existem clínicas de ortopedistas especialistas em quadril que reúnem subespecialidades sob o mesmo teto, o que encurta o caminho entre a queixa e o diagnóstico correto.

Essa investigação dirigida muda o desfecho. Na jovem, identificar o impacto femoroacetabular cedo pode evitar a artrose precoce. Na mulher de meia-idade, separar tendinopatia de desgaste define se o tratamento será fisioterápico ou cirúrgico.

Na idosa, medir a densidade óssea antes da primeira fratura é o que permite agir na prevenção, e não no resgate.

O que muda quando a idade entra no raciocínio

A mesma frase, dor no quadril, descreve realidades que quase não se parecem. Aos 25 anos ela fala de anatomia e esforço. Aos 50, de desgaste que começa. Aos 80, de osso frágil e risco de queda. Tratar todas como se fossem o mesmo problema é o que costuma adiar o diagnóstico e agravar o quadro.

Para a mulher que sente dor, o ponto de partida é simples de enunciar e difícil de praticar, não esperar a dor virar rotina. Quanto antes a causa é nomeada, mais opções de tratamento continuam na mesa, e menos a idade decide sozinha o destino da articulação.

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