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Atualizada: agora na Seleção, Tite chegou a comandar o Ypiranga por 111 dias

Reportagem do jornal Atmosfera recupera a história vivida por Tite em sua passagem como treinador do Ypiranga no ano de 1996

Por: José Adelar Ody
Fotos: Arquivo Atmosfera

Adenor Leonardo Bachi, 55 anos, (Tite), técnico confirmado oficialmente na Seleção Brasileira de Futebol nesta segunda-feira, é hoje uma das poucas unanimidades no cenário futebolístico nacional.  E para orgulho dos erechinenses, e do Ypiranga FC, o renomado técnico chega ao auge de sua carreira podendo contabilizar também uma passagem por Erechim. Foram pouco mais de três meses. Apresentando no dia 3 de janeiro de 1996, acabaria dispensado numa segunda-feira, 22 de abril. Ficou 111 dias.

Criticado até hoje, e até ridicularizado por alguns, o presidente Antonio Oldra justificou na época: “a comissão técnica não conseguiu fazer o milagre que esperávamos”.

A passagem de Tite pelo Colosso da Lagoa contabilizou 14 pontos de 11 jogos no Gauchão – até sua dispensa. Uma única vitória no Colosso da Lagoa.

Na época o presidente Antonio Oldra ainda declarou que a situação financeira do clube não permitiu “neste ano” o investimento necessário para compor uma equipe mais qualificada.

A demissão do técnico depois de uma derrota em Carazinho, diante do Atlético, foi ganhando ares de brincadeira irresponsável, à medida que o técnico Tite ia acumulando conquistas notáveis em sua carreira.

E por conta disso muito já se disse, comentou, e versões diversas foram espalhadas com o intuito gratuito até de tentar manchar o trabalho de pessoas íntegras e devotadas ao futebol, em especial ao clube das cores nacionais.

Uma das pessoas mais visadas neste processo, porquanto “eleita” como alguém que não conhecesse futebol (depois da obra pronta) é a do ex-presidente do Ypiranga Antonio Oldra, conhecido também pelos mais íntimos, como “Toni” Oldra.

A verdade

Antonio Oldra um italiano simples, honesto, digno, de sangue quente, trabalhador e apaixonado pelo Ypiranga, é uma daquelas pessoas que não necessita dizer o que não pensa, só para “agradar alguém”. E não diz mesmo.

Tem ideias, convicções e, invariavelmente, procura sempre proporcionar o melhor que pode, desde a carne que vendia em seu frequentado mercado, quanto à sua família e ao clube que dirigiu com muita dedicação, ao seu estilo, mais emotivo.

Em 1996 Antonio Oldra assumiu a presidência do Ypiranga. E ao lado da comissão técnica, contanto com a indicação e apoio do vice-presidente Everton Barbieri e Antonio Dal Prá, contratou Tite, para dirigir a equipe no Gauchão.

O treinador havia saído depois de três anos no Veranópolis e estava sem clube. Após sua indicação o Ypiranga o trouxe, contratando também o preparador físico, Luiz Parise. Naquele mesmo período o clube trouxe Guilherme Maccuglia, que ocupou o cargo de supervisor. Estava formada a estrutura técnica do Canarinho para o Gauchão de 1996.

Campanha

A campanha, no entanto, levou o Ypiranga para duas rodadas decisivas com vistas às suas aspirações. Um jogo contra o Atlético de Carazinho, e no domingo seguinte contra o Juventude, em Caxias do Sul. Haveria ainda o Brasil em Erechim.

Com a convicção de quem “perdesse para o Atlético (seria rebaixado para a Série B naquele ano) não poderia ficar no Ypiranga”, o presidente Antonio Oldra aceitou as exigências da comissão técnica. Uma delas, segundo lembra o supervisor da área de logística do clube, Osvaldo Sachetti, era concentrar no sábado a noite em Passo Fundo. E isso foi atendido.

No domingo à tarde o Ypiranga foi a Carazinho e uma surpresa aguardava os atletas. Na porta do vestiário e dentro dele havia recados das esposas e familiares incentivando o grupo. De quem partiu a ideia não se sabe, mas isso teria ocorrido já no hotel em Passo Fundo, segundo recordou Sachetti. O objetivo era claro: mobilizar ao máximo o grupo, porque em tese o jogo decisivo “mais fácil” era diante do Atlético de Carazinho, e não contra o Juventude no domingo seguinte, em Caxias do Sul, time que acabaria decidindo o título contra o Grêmio.

Tarde apática

E como o futebol está distante de ser uma ciência exata, o Ypiranga foi surpreendido em Carazinho. Em uma partida considerada pelo presidente Oldra “atípica”, o Canarinho perdeu por 2 a 1. Havia grave risco de não classificar à fase seguinte, mais o risco iminente de ser rebaixado à Série ‘B”. Seria preciso entre outras façanhas, vencer o Juventude em Caxias do Sul no domingo seguinte.

Rompimento

Diante do fracasso contra o Atlético de Carazinho, no dia seguinte, 22 de abril, a direção se reuniu e chegou a conclusão pela dispensa do técnico Tite e do preparador físico Parise. “Toni” Oldra lembra que no seu mercado Mercado se deu o acerto entre direção e técnico.

Fiel à sua convicção de que quem “perdia para o “Carazinhense” (na época) não podia comandar o Ypiranga”, e ainda preocupado com a capacidade de investimento do clube, o presidente achou que era hora de abrir mão do técnico – caro para a capacidade financeira do clube à época.

No dia seguinte, terça-feira, o supervisor técnico, Guilherme Macuglia, foi confirmado como novo técnico interino do Canarinho.

Façanha

No domingo seguinte o Ypiranga fez uma partida histórica ao bater o Juventude por 3 a 2 em pleno Alfredo Jaconi. De certa forma, o presidente que nunca se orgulhou de ter dispensado o técnico Tite – estava reconfortado pela conquista do resultado após uma semana de muitas críticas. No fundo, porém, depois da surpresa da derrota em Carazinho, nem o presidente acreditava numa reversão de expectativa o que se confirmou.

No jogo histórico de Caxias do Sul, o time se superou e com dois gols de Sandro Pires (Sandro Gaúcho – goleador do Gauchão de 96) e de Ari Collet aos 45 minutos do segundo tempo. O Canarinho cunhou uma façanha na sua história. Faltava ainda uma rodada e o Ypiranga alcançaria seu ingresso à próxima fase.

O técnico mais trabalhador que conheci

O presidente que “dispensou” Tite em 1996 do Ypiranga, hoje vive entre Erechim e o litoral catarinense. Mantém a mesma discrição e seriedade, com foco na transparência. Verdadeiro, assim como reconhece que “em 1996 quando quem perdia para o Carazinhense não podia continuar técnico do Ypiranga”, vai logo colocando tudo em pratos limpos.

Aquilo que aconteceu em 1996, de acordo com o presidente Antonio Oldra, tem muito a ver com o momento. Resultados, relação de alguns atletas com a comissão técnica e (não se sabe que teria razão até hoje – mas algo até normal em um grupo), e, principalmente, com a falta de perspectivas quanto a uma classificação, pesaram, além do custo da comissão técnica para as condições financeiras do Ypiranga, argumenta o ex-dirigente.

Antonio Oldra, no entanto, recordando que trabalhou com muitas pessoas dentro do futebol e no Ypiranga, é categórico: “eu não conheci nenhum técnico de futebol que trabalhasse como o Tite. Ele vive futebol onde trabalha nas 24 horas do dia. Futebol e família. Ele é o homem certo para a Seleção Brasileira. Os caras vão trabalhar 12 horas/dia”, destacou Oldra, numa referência aos atletas.

Ele também elenca outras qualidades de Tite: “no Ypiranga foi sempre um homem que se destacou pela sua calma e honestidade. Por seu trabalho. Teve um probleminha com jogadores, mas isso pode acontecer em um grupo. Ele vai dar muito certo na Seleção porque é um homem trabalhador. Um homem família”.

Antonio Oldra disse que se encontrou com Tite umas duas vezes depois de sua passagem pelo Ypiranga, e que jamais alimentou qualquer desejo que não fosse de sucesso para o técnico que ele dispensou e hoje comanda a Seleção Brasileira.

Lembranças de Sachetti

De outra sorte, o supervisor para questões logísticas do Ypiranga em 1996, Osvaldo Schetti, 83 anos, também tem algumas recordações do técnico Tite. Foi ele quem relatou a história que antecedeu a partida contra o Atlético de Carazinho, que levou à concentração no dia anterior em hotel em Passo Fundo. Sachetti disse que pessoalmente era contra a concentração, mas não foi isso que prevaleceu.

Everton Barbieri destaca desgaste

O vice-presidente de futebol do Ypiranga em 1996, o fisioterapeuta Everton Barbieri, também lembra da passagem de Tite. “Era um sonho antigo do clube. O Tite era um jovem treinador com excelentes resultados na serra. E sempre nos incomodou (Ypiranga). Até alimentávamos o sonho de um dia trazê-lo para Erechim. A oportunidade se abriu em 1996 quando após três anos de Veranópolis, Tite, ficou livre no mercado”. Segundo Barbieri, “o Tite veio para cá com a esperança de fazer um grande trabalho e nós também”.

Everton Barbieri salienta um aspecto importante da época. Ele disse que começaram a aparecer algumas desavenças no vestiário, que levaram a um desgaste precoce entre direção e vestiário, minando as relações. Esse ambiente foi aumentando, tumultuando de alguma forma o relacionamento dentro do clube.

Apesar disso, Everton Barbieri faz uma observação oportuna: “não é hora de comparar ninguém”. Nem pessoas, nem grupo em tempos diferentes. Todos eram o que eram na época, e queriam o melhor. Isso deixa claro que todas as partes podem ter tirado lições do episódio de 1996, levando a um crescimento de todos, provavelmente.

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>>Na foto, Tite é o primeiro em pé, à esquerda

O jogo da dispensa

Apesar da profissão de técnico de futebol no Brasil não gozar das menores garantias, dificilmente alguém é dispensado por um único resultado. O técnico Tite do Ypiranga caiu na segunda-feira, 22 de abril depois do Ypiranga perder para o Atlético de Carazinho, em Carazinho, por 2 a 1. Pesaram o resultado, as chances do Canarinho na competição, a campanha (11 jogos – 14 pontos) e a situação financeira do clube. Ao abrir mão da comissão técnica (Tite e Parise), e efetivar Macuglia, houveria melhor capacidade de sustentação do clube no ano.

Mas a partida em Carazinho foi um desastre para o clube das cores nacionais. O Canarinho apostava tudo nesse jogo para suas pretensões.

Depois haveria Juventude em Caxias e o Brasil. A hora de vencer e se garantir era aquela.

Além do mais, o Atlético estava dois pontos atrás do Canarinho.

Fraco no meio campo e totalmente dominado no setor ofensivo, o time de Tite foi presa fácil para o Atlético que até então somava 12 pontos contra 14 do Ypiranga.

Aos 30 minutos, depois de dois escanteios sucessivos, Dinei fez 1 a 0 para os donos da casa. Ainda no primeiro tempo, Zéclei e Luciano Maia perderam chances de ampliar.

Na segunda etapa o técnico Tite substituiu Kuki, de fraca atuação, por André Carpes, e a equipe melhorou.

Aos 36 minutos, Erveton Luiz acertou um belo chute e empatou. O Ypiranga insistia, mas quem marcou foi o Atlético.

Eram 44 minutos quando Zéclei, de cabeça, fez o 2 a 1.

Ali estava também aberto o caminho para a queda do técnico Tite do comando do Canarinho, o que se confirmaria no dia seguinte. No último dia em que o Ypiranga teve no seu comando um técnico, que exatamente 20 anos depois viria a ser confirmado no cargo de técnico da Seleção Brasileira, o time jogou com: Carlos Alberto; Luciano, Turato, Xavier e Xará; Marcão, Cícero (Sandro Sotilli) e Everton Luiz; Kuki (André Carpes), Sandro Pires e Gilmar. A arbitragem foi de outro homem que, com o tempo, se consagraria no futebol – Carlos Simon.

Desfazendo a dúvida

Desde a passagem do técnico Tite pelo Ypiranga e seus consecutivos sucessos, muito se fala de forma especulativa sobre as razões que levaram à sua queda. Afora as já mencionadas aqui pelo presidente e o diretor de futebol da época, surgiu outra. A de que Tite e Paulo Gaúcho não teriam uma boa relação. E mais que isso: que Paulo Gaúcho teria sido mal substituído diante do Atlético de Carazinho, levando à derrota do Ypiranga.

A história é outra.

Ela revela que cerca de um mês antes dessa partida, a direção anunciara a dispensa de Paulo Gaúcho e Grizzo do Colosso da Lagoa. Ou seja – Paulo Gaúcho nem estava mais no Canarinho e por isso nunca foi escalado e muito menos, substituído na última partida do Ypiranga sob o comando de Tite.

Paulo Gaúcho foi um dos maiores ídolos do Colosso da Lagoa e um dos maiores jogadores da história do Ypiranga.

Na época o presidente Oldra justificou: “por tudo que o Paulo fez pelo Ypiranga vamos acertar numa boa e tentar junto com o Machado (empresário Jorge Machado) e o Dal Prá (ex-dirigente do Canarinho) colocá-lo noutro clube”.

Tite revela perfil na apresentação

O fato objetivo é que o técnico Tite, que chegou ao Ypiranga com 34 anos, e não era nem sombra do que viria a ser dentro do futebol graças à sua capacidade e empenho, voltaria ao Juventude e três anos depois seria campeão Gaúcho pelo Caxias em pleno Olímpico, de onde alçaria voo para sua exitosa carreira.

Dentro do Colosso da Lagoa de hoje ninguém alimenta qualquer ressentimento quanto às relações com o atual técnico da Seleção Brasileira, restando um sentimento de orgulho pela passagem do técnico pelo Ypiranga FC.

No dia de sua apresentação no Colosso da Lagoa, 3 de janeiro de 1996 – uma quarta-feira à tarde, às 15h, o vice-presidente de futebol, Everton Barbieri foi claro sobre a questão de profissionalismo: “esta é a profissão dos senhores. Para tanto os senhores são remunerados. Não exigiremos o mesmo amor que nós (dirigentes) temos pelo clube, mas exigiremos profissionalismo”.

Já o técnico Adenor Leonador Bacchi, o Tite, também foi objetivo e ali despontava seu perfil reconhecido por todos. Disse ele: “lealdade e trabalho. Não conheço outra fórmula para buscar o sucesso no futebol. Não sou de treinar imprensa ou diretores, mas o grupo”, e todos subiram para o primeiro trabalho que sob este comando iria até o dia 22 de abril.

Por que o time de Tite, que na época não era ao que se pode associar hoje, por que não venceu – não se sabe. Talvez por que a vida não aconteça de uma vez só, e nem seja feita só de decepções ou vitórias, mas, sobretudo de observações, humildades, persistências e aprendizados.

Mas uma coisa é incontestável: a base de princípios precisa estar em todos os momentos da vida, para a partir dela, construir a própria história. E esta base Adenor Leonardo Bachi, o Tite, já revelava aos 34 anos no Colosso da Lagoa.

Lembranças do Ody

“Também tenho minhas lembranças da passagem do técnico Tite por Erechim. E todas elas elevam de primeira mão um homem compenetrado na sua profissão, interessado, educado, plural, leal, sereno, bom ouvinte, humilde e com o foco no trabalho.

A vitória – era, e é, outra coisa.

Além disso, alimentava um culto a valores, como a família, por exemplo, elogiável, digno de quem não raras vezes trabalha longe dos seus e em um ambiente que desperta atenções.

Estávamos com o Programa Comando Esportivo no ar, sempre às 20h de segundas-feiras e sextas-feiras na Rádio Erechim. O programa ainda existe com Nadir Pereira da Silva.

E contamos com inúmeras participações, ao vivo, do técnico Tite. Ao contrário de outros “treinadores” que encontramos ao longo dos anos, Tite jamais refugou uma entrevista.

Já na época inovava com termos de mais efeito ao falar de futebol. Flutuar, compor, espetado e repetição…) eram alguns deles. Seus conceitos pareciam aflorar com firmeza e clareza. Era uma questão de prestar atenção e operacionalizar.

Outra coisa que sempre me chamou atenção eram seus valores. Certa feita, quando de um Gre-Nal em Erechim, o Inter estava no antigo Paiol Grande.

Encontrei o Tite perto do meio dia caminhando de bermudão e abrigo do Inter. Ia do hotel em direção não sei aonde. O saudei e ele me reconheceu. “Tudo bem Tite – aonde tu vai?”, perguntei. E ele: “rezar. Rezar um pouco!”. A Paróquia São Pedro estava ali a uma quadra.

Ainda naquele 1996 aluguei um apartamento na rua São Paulo, em frente ao que era a Unetral. Estava com a família reconstituída.

Um belo dia chegou uma mudança.

“Seu” Sachetti fazia força e orientava pessoas para fazer subir um sofá até um andar acima do meu.

Quem será meu vizinho – fiquei pensado?

Dali uns dias

numa noite,

ouvi Guilherme, Parise e Tite,

conversando e rindo na sacada

enquanto bebericavam alguma coisa.

Pareciam à vontade.

O técnico da Seleção Brasileira de Futebol

seria meu vizinho!?

Eu, um jornalista e não sabia disso.

Menos ruim,

é que ele,

técnico,

também não sabia.

Mas as duas pontas

do processo de comunicação

estavam próximas.

Que não se despreze o tempo”.

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