Conversando sobre um degrau
Uma festa povoou a nossa infância, minha e de meus irmãos. Os filhos de alemães das áreas da região do norte do RS e sul de SC se reuniam, uma vez por ano, e passavam três dias, ou mais, comendo, dançando e bebendo chope. Tanto na pequena Piratuba-SC, nome de uma hospitaleira cidade catarinense, como do lado de cá do rio Uruguai, em Marcelino Ramos- RS, onde a nossa família morava. Em ambos os locais ainda não existiam as belas Estâncias de Águas Temais que agora existem e atraem turistas. Mas o Kerb, este era o exótico apelido do festival dionisíaco, já era um gérmen de turismo que proliferaria. Tinha tudo para dar certo e deu…
Sempre achei aquilo raro, os alemães de outras regiões não me pareciam muito festivos. Mas o Brasil é o Brasil e acaba se misturando tudo, para no fim, algo, ou tudo, se transformar em festa.
Saí, pela vida e pelo país afora, perguntando a origem da palavra, que sempre achava ser do dialeto Kaigang e ligada às festas do fogo, ou da colheita do pinhão- pelos índios originais daquela região do Alto Uruguai. Mas ninguém confirmava isto e também não me forneciam uma teoria consistente. Só se registrava: – que a festa tomou pé em 1947. Curiosamente, após o fim da segunda guerra mundial. E sempre teve o sentido de congraçamento, reunião, como se fosse uma comunhão tribal- normalmente acompanhada de muita carne assada e, é claro, de chope, muito chope.
As outras colônias de alemães, como a do Espírito Santo, por exemplo, desconheciam a festa e também a palavra. Claro que cidades catarinenses, e muitas gaúchas saíram copiando a boa e gaiata ideia do Kerb – afinal Piratuba fica na fronteira de Santa Catarina com o Rio Grande do Sul. E a ferrovia que trás costumes e objetos, também os leva para outros endereços…
Sempre é bom a gente refletir sobre o que aquela cidade, quase perdida nos confins do Brasil, festejaria em 1947? Era uma comunidade formada de herdeiros de europeus, que vieram ao nosso país para fugir das crises e da fome daquele continente. Poderíamos indagar, por exemplo, se suas emoções e angústias não seriam similares as dos filhos de outros europeus – que também ocuparam terras no que hoje são os Estados Unidos da América. Pensando assim a festa de Ação de Graças norte-americana, com a sua grande comilança de perus, é que deve servir de paradigma para desvendarmos a verdadeira origem deste Quarup Germânico.
Mas se um Quarup necessita de um chefe morto, para ser homenageado e agregar as pessoas, os descendentes de alemães só precisaram dos dormentes do trem para se reunir. Estes eram os seus concretos pontos de encontro no final da labuta diária. Ali, talvez, sentados, depois de assistirem à derrocada dos exércitos da velha Europa, em 1945, onde inclusive diversos de seus filhos morreram combatendo ao lado do Brasil, devem ter se sentidos felizes e gratificados por estarem morando em uma região de abundância. E resolveram festejar isto. Como fora o trem e a ferrovia que propiciaram tudo, inclusive o acesso a uma séria demarcação fundiária das terras, o vocábulo que serviria de apelo ao festejo teria, provavelmente, de ser ligado à construção da Ferrovia São Paulo – Rio Grande do Sul. E assim foi feito.
As galinhas e porcos, assim como os perus norte-americanos, é que passaram a “pagar o pato” desta maravilhosa festa. Pois o que não falta em um Kerb são linguiças, galinha cozida e carne de porco; das cucas e do chope nem é necessário falar…
Os primeiros engenheiros de nossas ferrovias foram, sem dúvida, profissionais que se comunicavam em anglo-saxão, não eram os brasileiros, muito menos alemães, e pertenciam a empresas britânicas e canadenses. Mas detinham o poder de impor neologismos ao vocabulário no entorno das ferrovias em obras. Provavelmente a derivação da palavra curb (degrau ou meio fio) acabou se consolidando como kerb e o resto todo mundo sabe. E que festa prossiga!
Villa Catita, 04 de julho – dia da independência dos USA
Nota de rodapé – verificando, via internet, no World English Dictionary, chegamos à raiz original do vocábulo:
| kerb or ( US and Canadian ) curb , trata- se de uma linha de pedras, ou concreto que forma uma espécie de borda, normalmente colocada entre o pavimento e a linha férrea (…) n- a line of stone or concrete forming an edge between a pavement and a roadway, so that the pavement is some 15 cm above the level of the road |