Criminalidade vs Liberdade
Extinguiu-se a era em que andávamos livres pelas ruas, a passos leves sem a menor preocupação, admirando a paisagem à nossa volta, exalando o zéfiro e, de quando em quando, checando os transeuntes à nossa volta em busca de alguma movimentação peculiar que quebrasse a serenidade dos dias.
Foi-se. E não mais voltará.
O fato é que estamos cercados, de todos os lados, pela criminalidade. As crianças não mais podem sair sem a companhia de um adulto – que, por muitas vezes, sequer tem alguma valia –, os investimentos em sistemas de segurança nunca foram tão expressivos e as estatísticas tornam-se mais preocupantes à medida que os recursos financeiros do Estado se esvaem. Por conseguinte, a sensação de desamparo é crescente a cada dia.
Hoje, evitamos ao máximo sair de casa portando qualquer item que possa ter algum valor para os criminosos. Joias, celulares, bolsas de grife e, inclusive, tênis de marcas renomadas: tudo é motivo para um eventual roubo. E pobre do que esboçar sinal de resistência: um tiro à queima-roupa vem de brinde, rápido e frio como se a vida nada valesse. Nós, como população, andamos circunspectos, cautelosos, a passos largos para encurtar ao máximo o tempo nas ruas. Estacionar o carro em qualquer lugar? Sem cogitação. Pegar um ônibus, menos ainda.
Com isso, a suposta liberdade de ir e vir vai-se para o ralo. Como se sentir seguro em meio ao aumento de 70% no número de homicídios no Rio Grande do Sul nos últimos dez anos? Como seguir com a rotina normalmente quando o ritmo dos assassinatos é oito vezes maior do que o do crescimento da população? Indiscutivelmente e com todas as veras, estamos em uma crise na segurança pública. Os números espantam, de fato. A percepção que temos é de que a vida já não passa de uma mera condição de existência extremamente momentânea.
Se eu conheço alguma das vítimas noticiadas nos jornais nos últimos dias? Não. Não eram meus pais, meus amigos, meus familiares ou meus conhecidos. Eram humanos, assim como eu e você. Humanos achincalhados e mortos pelo disparo de uma arma portada por alguém sem amor, que tiveram de si tiradas tantas possibilidades de realizações, sucessos e conquistas… Tudo isso pelo simples fato de terem saído de suas casas para viverem mais um dia comum. Nossa vida, de fato, de nada mais vale. E fica aqui um conselho: se for sair de casa hoje, esqueça-se do celular, da bolsa e das roupas caras e leve consigo somente a dignidade. Pensando bem, deixe-a no balcão. Até ela nos foi roubada…