Imigrações, êxodos: dois tempos, dois cenários
No processo histórico atual de um mundo globalizado, imagens de populações imigrantes em desespero pela sobrevivência nos chegam a todo instante, e nos chocam pela cruel realidade que a humanidade vive neste século XXI, realidade produzida pela própria humanidade. Considero que cada vez mais a ciência histórica é a que nos fornece elementos que permitem formular análises para explicitar fatos, comportamentos e catástrofes humanas do nosso tempo. Walter Benjamin já referia sobre o conceito de história: o que chamamos de progresso é esta tempestade. Mas a temática da imigração no século XXI deve merecer muita reflexão principalmente por que hoje, os que imigram tem o caráter de serem refugiados, quaisquer sejam as razões das fugas e dos êxodos.
Reproduzo a seguir um artigo da acadêmica Elisiane Gnovatto, do Curso de História da Universidade Federal da Fronteira Sul. Ao tratar da imigração e da formação cultural e política dos núcleos pertencentes à Colônia Erechim, então no início do século XX, a acadêmica demonstra fatos interessantes e curiosos. Mas seu artigo serve principalmente para reafirmar realidades históricas em se tratando de imigração, política, identidade, liberdade. E também para identificar realidades, momentos e vivências humanas relacionadas às possibilidades que contingentes humanos emigrados de suas pátrias, tiveram aqui no Brasil naquele período. Os europeus que chegaram à nossa região certamente não encontraram o “leite e mel”a correr. Mas certamente também, aquele processo imigratório não tinha o caráter de serem eles refugiados.
IMIGRANTES: ETNICIDADE E CULTURA NO CONTEXTO REGIONAL
“Este artigo faz parte de um estudo acadêmico que está em sua fase inicial e que é requisito à conclusão do curso de Licenciatura em História da Universidade Federal da Fronteira Sul, campus Erechim. Até o momento de minhas pesquisas já pude constatar que nossa história regional é riquíssima e com muitas lacunas a serem preenchidas. Mas este é o papel e a condição de uma universidade que se insere em um contexto de uma região que tem pouco mais de cem anos na trajetória de ocupação capitalista. Trabalhar com o resgate histórico de uma localidade, família, grupos humanos ou qualquer outro elemento de relevância, é complicado, pois passa por um processo de seleção, o que lhe dá um peso maior, tendo em vista que quem seleciona escolhe aquilo que lhe parece mais interessante ou importante para explicar e contemplar o seu objeto de estudo. Minha escolha recai sobre a colônia Barro, atual município de Gaurama, um modelo de colonização multiétnica que constituiu-se diferentemente de outros núcleos na região, em que concentraram-se etnias específicas. A presença da estrada de ferro foi fator fundamental para justificar esta multiculturalidade que abrangeu mais de dez etnias. Importante salientar que a setorização espontânea destas etnias na colônia Barro aproximou fisicamente os colonizadores e propiciou a criação das sociedades étnicas que contemplavam alemães, italianos e poloneses. Em 1918 foi criada a “Sociedade Marechal Joséj Pilzudski”, que reunia descendentes de poloneses e funcionou até 1937. Em 1924, os italianos organizaram uma sociedade de mútuo socorro, a “Societá Italiana di Mutuo Soccorso Principessa Mafalda”, uma das 64 existentes no estado. Em 1927, foi criada a sociedade alemã “Deutscher Verein Graf von Spee”, e, na Linha 2, secção Suzana, formou-se a “General Feldmarschal Von Hindenburg”. Vários estudiosos desta temática, como René Gertz e Giralda Seyferth, se pronunciam no sentido de que o baixo contato dos imigrantes com a sociedade brasileira provocou a afirmação de suas etnicidades gerando uma imagem de segregados principalmente durante o Estado Novo.

Em maio de 1933 passeata nazista saindo da Sociedade Alemã Deutscher Verein Graf von Spee de Barro, atual Gaurama
Com relação às sociedades alemãs e a influência do nazismo, muitas leituras nos apontam que seus participantes seriam constituídos de fervorosos adeptos do nazismo pressupondo a influência do mesmo sobre o integralismo o que explicaria a adesão dos descendentes de alemães a esta ideologia. Revendo notícias das décadas iniciais do século XX, destaco “A festa do Reerguimento da Alemanha em Barro”, retirada do jornal O Boavistense datado de 30 de maio de 1933. Acompanhada de uma foto, a reportagem retrata uma passeata cívica nazi-fascista pelas principais ruas de Barro seguida de um churrasco e uma festa oficial nos salões da Sociedade Alemã Graef von Speel. Discursos apológicos ao patriotismo do povo alemão foram saudados com aplausos pelo público que ali se presenciava, como cidadãos fardados com vestimentas nazistas, alunos da Escola Alemã carregando festivas bandeiras, representantes do jornal O Boavistense e grande número da população de Barro e das comissões de muitas outras localidades. Os grupos étnicos, nas regiões de colonização estabeleceram, em algum grau, suas etnicidades, através das identidades articuladas à origem nacional dos participantes. Este choque ao ver bandeiras nazistas em Barro, precisa ser entendido e analisado com o olhar do período, ou seja, a década de 30, denotando-se que em 1933 o presidente da República alemã, Paul von Hindenburg confia a chancelaria à Adolf Hitler, führer do Partido Nazista que reafirmou o país com seu projeto nacionalista e conquistou adeptos de sua ideologia em grande parte da Alemanha e no Brasil. Entender as sociedades étnicas perpassa essencialmente por entender as relações estabelecidas entre os colonos e sua ligação com a pátria mãe, seja ela sua ou de seus pais. Esse sentimento nacionalista de pertencimento foi uma das poucas coisas que restaram após a empreitada de atravessar o oceano Atlântico em busca de oportunidades e de uma vida melhor, em uma terra desconhecida e de proporções continentais.
A temática que estou pesquisando me causa, também, uma grande inquietação, pois no final do século XIX a Europa desfez-se de pobres e indesejáveis que ao Brasil serviram para a substituição do braço escravo, contemplando inclusive teorias de branqueamento. Lembro que o continente europeu efetivou também a exploração colonial na África deixando um rastro de grandes mazelas sociais. Paradoxalmente o nosso país que no passado recebeu aqueles pobres brancos europeus sem terra e sem trabalho, hoje é novamente espaço de atração de contingentes humanos que chegam ao Brasil em busca de uma básica sobrevivência. Temos nós hoje a capacidade de entender este novo processo imigratório? Os africanos e haitianos que estão chegando terão aqui as mesmas oportunidades que tiveram os nossos tataravós e bisavós brancos europeus? Terão eles o direito de praticarem suas identidades culturais aqui? Temos nós o direito de emitir julgamentos prévios neste momento?”
Elisiane Gnovatto/Acadêmica do Curso de História – UFFS
Foto: Acervo do Museu Municipal Irmã Celina Schardong