- Atmosfera On.line - https://www.atmosferaonline.com.br -

#Artigo – Agonia e Êxtase

Comentam alguns, já passados das cinco, seis décadas, que os anos sessenta, setenta foram doces, límpidos e mais éticos. Bailinhos, namoricos leves, músicas românticas ou não, mas com letras entendíveis e lógicas. Cinema, matinée, com dois “es”.

Algumas meninas, como eu, raramente iam ao cinema. Os matinés com as amigas, de vestido rodado, saia de armação engomada, sapato e meias tipo carpim, era o sonho de todas e, às vezes, o mais acessível. Mas era uma agonia o pai permitir.

A vida podia ser dourada para alguns, porém era uma agonia para outras.

Ao chegar o dia premiado de ir ao matiné, ficava-se eletrizada ao assistir nossos ídolos, os mocinhos. Uma amiga dizia inconformada: “mocinho não morre”, quando isso acontecia.

Meus ídolos primeiros foram Gregory Peck, Rock Hudson, James Dean e o fantástico Charlton Heston. Modelo de homem era ele. Mais tarde vieram outros, menos amados. Com Heston assisti o memorável “Agonia e Êxtase” que marcou de forma indelével minha memória cinematográfica. Quando, bem mais tarde, em minhas visitas à Capela Sixtina, eu olhava para o teto e lá via Buonarotti quase cego, pintando sua obra, enquanto o Papa Júlio o importunava com seus reclamos e pressa em ver a obra finalizada. Michelangelo viveu a agonia de seu trabalho mas teve o êxtase da conclusão.

O filme me conduziu a um pensar muito alentador: posso viver e trabalhar muito, mesmo sempre agoniada, entretanto, lá pelos 50 anos terei uma aposentadoria digna que me proporcionará paz, saúde, compra de bons livros, viagens pelo mundo… Assim, bem jovem, iniciei a jornada rumo ao sonhado fim.

Pensava que sendo muito pobre, a maneira única era estudar, estudar, enriquecer-me intelectualmente para assim merecer um bom trabalho de professora e pesquisadora. Era o que me entusiasmava.

Em um tempo longínquo, já fazendo meu primeiro Curso Superior na UPF, comecei a lecionar em pequena escolinha. Ida às 6h em ônibus. Volta, 10km de barro, pó, sol, chuva. Nada de ônibus. Agonia. A seguir escola em Gaurama, de segunda a sábado para cumprir 10 períodos. Agonia de chegar em Erechim e, sem almoço ir Passo Fundo de onde voltava às 19h, pra correr até o Mantovani e lecionar até 22h50min. Correr a pé para casa, corrigir trabalhos.

Mais aumentavam os trabalhos, mais eu amava lecionar. Nova faculdade em Passo Fundo agora de História. A paixão pelos livros em um crescendo sem fim. De repente, aulas de espanhol até 18h50min. Correr até Barão do Rio Branco, até 20h50min. Sair voando até a URI, feliz, feliz por poder caminhar ao lado de meus alunos, em seus estudos.

Cursos somavam-se a mais cursos e Seminários. Depois um tempo de nada aprender, em um trabalho sem acréscimos.

Subitamente, o apaixonante Mestrado de História Ibero-Americana na PUC, onde apareceu forte o grande amor pela pesquisa. Agonia, sobre agonia com os complicados trabalhos e viagens.

Mas, que deslumbre pela, até então, desconhecida História da América Espanhola e por toda a Ibéria e seus povos formadores. O êxtase apareceu de mansinho quando durante a Banca, um dos doutores afirmou que eu havia escrito um capítulo inédito da História Gaúcha, ao investigar, no Arquivo do Itamaraty, no Rio documentos nunca haviam sido investigados ou citados. O breve êxtase esborrou-se com a dura realidade: demonstrar sempre mais excelência e aprimoramento. Cursos por todo o Rio Grande; no Rio de Janeiro; em Servilha na Espanha. Pesquisar, escrever livros, artigos. Promover cursos para o Museu de História, outra grande paixão. Entrevistar possíveis doadores para resgatar objetos importantes para o amado museu. Lutar e lutar por ele. Muitas caminhadas a pé, levando o gravador e a esperança de salvaguardar mais uma peça.

Novo curso “Arqueologia”, com extraordinárias perspectivas de um esplêndido aprendizado novo. Professores notáveis que nos encantavam. Do Curso, após severa e bem orientada pesquisa por Arqueólogo da USP/São paulo, resultou um livro na linha da Arqueologia Histórica: “O Castelinho e a Casa Primeira escola”. Quase houve êxtase, quando ocorreu o lançamento bonito do meu último trabalho individual: “A grande Mestre e a eterna aprendiz: a História e eu”. Quase!

O Museu de História e o Laboratório de Arqueologia da URI estavam nos meus melhores momentos como pesquisadora. Aos dois dediquei batalhas hercúleas para divulgar, preservar, e realizar a devolução social.

Esse foi um período de agonia, pelos percalços e inúmeras dificuldades que a realidade nos mostra. Mas, e a jubilação? Ela chegou sim. Abri a janela do coração esperando sentir o esperado êxtase: saúde, livros e mais livros, alguma viagem – Marrocos, retorno à maravilhosa Turquia…

Porém, o que enxerguei, bem presente e amarga foi a AGONIA: uma humanidade em pânico – sofrimento – medo – desinformada. Bem como em nosso país, onde os médicos estão perplexos, envolvidos por discussões estéreis, atacados por aproveitadores inescrupulosos, e mesmo assim desempenhando, juntamente com todos os profissionais de saúde, uma jornada heroica.

Cansada e desalentada após a longa caminhada, eu e todo o magistério continuamos em Agonia. Desacreditados, esvaziados em nosso elan, em nosso ideal, esperamos desde 2014, pelo menos uma pequenina reposição. Nada. Agora com a agonia nacional e o descalabro moral, teremos que esperar até 2022 para sairmos de tão degradante situação. Em sendo assim, meu futuro Êxtase será poder pagar o plano saúde e comprar os remédios necessários sem ter que pedir: “Todos genéricos ou os mais baratos”. Quanto aos livros, recorrerei à Biblioteca Municipal. Gosto de segurá-los em minhas mãos e sentir seu papel. Livros de papel, os amados.