Mundo entrou em estado de “falência hídrica”, alertam pesquisadores da ONU
Usar mais água do que a natureza pode repor pode ter resultados catastróficos, assim como viver acima das suas possibilidades financeiras.
O mundo já vive uma era de “falência hídrica”, marcada pelo consumo de água doce em volumes superiores à capacidade de reposição dos sistemas naturais, agravado pelas mudanças climáticas. Hoje, cerca de 4 bilhões de pessoas enfrentam escassez severa de água por pelo menos um mês ao ano, sem acesso suficiente para necessidades básicas.
Os impactos do déficit hídrico são visíveis em diversas regiões: reservatórios esvaziados, subsidência do solo, quebras de safra, racionamento, além do aumento de incêndios florestais e tempestades de poeira. Em Teerã, secas prolongadas e uso insustentável esgotaram os reservatórios; nos Estados Unidos, a demanda já supera a oferta do Rio Colorado, essencial para sete estados.
Segundo estudo do Instituto da Universidade das Nações Unidas para a Água, Meio Ambiente e Saúde, muitos sistemas hídricos não conseguem mais retornar às condições históricas, caracterizando um colapso permanente. A extração excessiva de água subterrânea tem provocado danos irreversíveis a aquíferos e zonas úmidas.
Um dos efeitos mais graves é a subsidência do solo. Na Cidade do México, o solo afunda cerca de 25 centímetros por ano. O relatório Global Water Bankruptcy, de janeiro de 2026, aponta que mais de 6 milhões de km² já sofreram afundamento significativo, afetando áreas onde vivem cerca de 2 bilhões de pessoas, incluindo cidades como Jacarta, Bangkok e Ho Chi Minh.
A agricultura, responsável por 70% do consumo global de água doce, é fortemente impactada. Cerca de 3 bilhões de pessoas e mais da metade da produção mundial de alimentos estão em regiões com armazenamento hídrico instável. Entre 2022 e 2023, 1,8 bilhão de pessoas enfrentaram secas, com efeitos como alta nos preços dos alimentos, redução da geração hidrelétrica, riscos à saúde, desemprego, migração forçada e conflitos.
Mesmo diante desse cenário, países seguem ampliando a retirada de água para sustentar o crescimento urbano, agrícola, industrial e a expansão de centros de dados de inteligência artificial, aumentando o risco de tensões locais e internacionais devido à interconexão entre regiões.