Passar do meu para o nosso!
É fundamental a gramática da oração: menos «eu» e «meu» e mais «tu» e «nosso»
No último domingo, Jesus ensinou os discípulos a rezar. A oração do Pai Nosso é a síntese de uma relação de amor entre Pai e filhos cujo centro não é tanto pedir coisas, mas se deixar transformar interiormente e exteriormente. Nesse sentido, é fundamental a gramática da oração: menos «eu» e «meu» e mais «tu» e «nosso».
O evangelho desse domingo (Lc 12,13-21), diante uma pergunta sobre a divisão da herança, Jesus chamou atenção a respeito da ganância. E contou uma parábola sobre um homem que conseguiu uma grande colheita e que em dúvida com o que fazer com tantos grãos, resolveu derrubar os celeiros e construir maiores. O objetivo do homem era: «descansar, comer, beber, aproveitar». O problema, segundo a parábola, é que o homem não se deu conta de alguma coisa importante: «ainda essa noite você vai morrer e para quem ficará tudo que acumulou?» E a conclusão do evangelho é ainda mais forte: «assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo».
Acompanhei situações difíceis sobre divisão de herança. Irmãos que nunca mais se falaram, filhos que não participaram de funerais dos pais, famílias totalmente desintegradas por causa da divisão dos bens. É mais um capítulo dessa mesma parábola difícil de ser assimilada.
A questão que Jesus levantava era sobre a ganância e sobre o acúmulo. De fato, quando lemos com atenção, a vida do homem foi o contrário do Pai Nosso: «meus celeiros», «meu trigo», «meus bens», «minha vida». Esse excesso de «meu», não significa negação da identidade, dos bens pessoais, mas viver a vida apenas na direção de si. Quem vive assim passou do «tenho muito dinheiro» para «o dinheiro tem tudo de mim». Ninguém mais apareceu na parábola, o homem cheio de dinheiro não tem nada além de grãos, ninguém da família, nenhum amigo, nenhum sentimento que atravessa o «meu». No fundo, a morte só confirmará o que o acúmulo já tinha feito.
O livro do Eclesiastes, na primeira leitura, chamou de «vaidade das vaidades» toda vida cujo único centro é a ganância. É por isso que São Paulo, na segunda leitura, colocou como meta para todos os cristãos: «buscar as coisas do alto», ou seja, expandir o «meu» para o «nosso». Com o salmista, pedimos hoje essa graça: «dá ao nosso coração sabedoria!»