Sai
“Sai” é o convite a rezar, um mantra que brota da Palavra.
Ainda ressoa forte o convite do Papa Francisco para a Igreja se tornar cada vez mais um “hospital de campanha”. Trata-se da vocação de “saída”, da natureza missionária, do compromisso de alcançar as estradas, com a “tenda” de um coração livre e aberto, capaz de não permanecer fechado em si, mas viver aquilo de mais bonito que a humanidade é chamada a viver: descentralizar-se no amor. O Gabriel Marcel escreveu um livro chamado “Uomo viator”, em que diz: “uma ordem terrena estável, talvez, só possa ser estabelecida se a humanidade mantiver uma consciência viva de sua condição itinerante”.
A ‘consciência itinerante’ é o convite da Palavra de Deus nessa segunda-feira. De fato, no início da história da salvação, está o convite de Deus a Abrão e Sarai: “Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar” (Gn 12,1-9). O convite a “sair”, ressoa ainda antes quando no relato da criação está escrito: “o homem deixará seu pai e sua mãe…” (Gn 2,24). A vocação nômade que fez parte de toda a história da família de Abrão é uma referência fundamental para uma vida itinerante, uma vida aberta, capaz de acolher a realidade e colher um futuro maior. Fechar-se é apequenar-se.
Para ajudar a compreender a fidelidade ao evangelho, Jesus indicou aos discípulos a necessidade de superar a obsessão pelo “cisco do olho do irmão”. A cultura do julgamento atrofia a humanidade. O remédio indicado por Jesus é justamente retomar a ‘consciência itinerante’ na direção dos irmãos: “tira primeiro a trave do teu próprio olho e então enxergarás bem para tirar o cisco do olho do teu irmão” (Mt 7,1-5).
“Sai” é o convite a rezar, um mantra que brota da Palavra. A “saída” é também em direção ao nosso coração, um coração que reconhece e faz discernimento da hipocrisia e da autossuficiência se transforma num coração missionário, capaz de alcançar o outro sem julgar, sem diminuir, porque antes de tudo escuta, acolhe, respeita a terra sagrada de uma existência.