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Alcione Roberto Roani

Uma questão de identidade: o que atribui significado ao nome?

Para compreender a relação entre o nome e o sobrenome é preciso transpor os limítrofes gramaticais timbrados nos registros públicos. A relação do nome com o sobrenome é rica em histórias e significados a tal ponto de haver uma relação de simbiose ou não. Provavelmente os chineses foram os primeiros a utilizar tal prática na qual o sobrenome precedia o nome. Algo ainda utilizado em algumas situações no mundo ocidental.  No período do Império Romano era comum utilizar três nomes sendo que o do meio era um indicativo do clã pertencente.  No padrão europeu é comum o sobrenome designar uma espécie de apelido de família herdado, na maioria das vezes, do pai. Assim, as mulheres passam a abdicar do sobrenome de solteira (maiden name) e adotam o do marido. Algo que nos dias atuais não é mais obrigação e a questão do  sobrenome a ser utilizado  passou a ser muito mais uma questão de acordo entre os nubentes.

Mas em relação ao sobrenome há certas particularidades no que tange o significado peculiar que cada porta, pois pode indicar um lugar,  uma ocupação entre outros vários. Porém, há uma dúvida que paira sobre a história do nome, a saber, precisamos de um sobrenome para atribuir sentido?  O nome por si só seria insuficiente?

Nesta linha de raciocínio vamos tomar a Democracia como exemplo. Ao personificar a Democracia poderíamos atribuir então um sobrenome a mesma. Qual seria o sobrenome da Democracia? O nome Democracia também tem uma história que remete a origem grega  na qual os cidadãos exerciam a soberania de forma direta seja para escolher os ocupantes dos cargos públicos ou participando das assembléias.  Com o decurso da história a Democracia ganhou vários “apelidos” e foi se ajustando ao movimento político da sociedade. Diante desta fartura de sobrenomes atribuídos é possível identificar alguns como emblemáticos diante do atual cenário político.

A Democracia pode optar pelo sobrenome de deliberativa. Nesta as decisões políticas devem ser alcançadas por meio de um processo de deliberação caracterizado por pressupostos teóricos e normativos  que permitam a participação da sociedade civil nas deliberações enquanto cidadãos livres e iguais (a exemplo do que defende o alemão Jürgen Habermas e o norte-americano John Rawls).

Ou optar pela composição Democracia agonística que enaltece a ideia de uma democracia radical, ou seja, a política e consequentemente a democracia são indissociáveis do elemento conflitual uma vez que são relações antagônicas e que não se reduzem a clivagem entre direita e esquerda. Existem elementos mais profundos que contribuem na formação das identidades coletivas (a exemplo do que defende o belga Chantal Mouffe e o alemão Carl Schimitt).

Há também a possibilidade de adotar a Democracia agregativa centrada na ideia de que os cidadãos não participam dos processos de decisão devido ao seu não interesse. Por isso, a Democracia se caracteriza pela concorrência organizada pelo voto, ou seja, é um método utilizado para tomada de decisões (a exemplo do que defende Joseph Schumpeter).

Nesta seara é possível associar o termo democracia a “livre competição pelo voto livre”. Assim, como o mercado econômico compete pela preferência do consumidor o mercado político disputa a preferência dos eleitores. Neste jogo a contrapartida que o eleitor possui é um bem denominado voto enquanto o político é uma vantagem sobre um bem ou serviço. O político passa a calcular (via partidos e estratégias dos marqueteiros) as trajetórias e os meios de ação para maximizar os votos e, por outro lado, os eleitores procuram maximizar as suas vantagens.

O povo não exerce o poder soberano e limita-se a apenas produzir parcialmente um governo que depois de constituído então se efetivará como um governo. Essa é a função básica do eleitor. Há também uma segunda função que é a de desempossar um governo quando na possibilidade da recusa da reeleição.

A Democracia poderia adotar outros sobrenomes como: Democracia tupiniquim ou até mesmo Democracia do erê xim. A primeira acabou de presenciar um fato marcante e veremos o quanto isso afetará a sua identidade. Já a última terá mais um capítulo escrito em breve, porém resta saber qual o sobrenome que ela irá adotar.

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