divdiv
PUBLICIDADE

Helena Confortin

Opinião

Tarde fria, chuva fina… doces lembranças…

O mês de maio de 2017, contrariando as previsões dos especialistas em meteorologia, foi particularmente chuvoso, frio, nevoento e de uma umidade pegajosa, molhada… Tais “caprichos” do tempo nos obrigam a ficar em casa, a buscar aconchego em família e amigos, a curtir livros, filmes ou programas de televisão, a criar maneiras diversas de entretenimento e lazer, a testar novas receitas de quitutes ou repetir as já velhas e tradicionais.

Este confinamento caseiro numa fria tarde do domingo, com chuva fina e silenciosa, a mim remete a doces lembranças: família reunida, crianças inquietas, perfumes, aromas, cheiros caseiros… e, especialmente, ao velho fogão a lenha da minha infância. Para quem, como eu, somos descendentes de etnias europeias, sobretudo de italianos, alemães e poloneses, o fogão a lenha sempre foi um velho amigo e companheiro.

Era ele quem nos unia no café quentinho em manhãs brancas de geada, em dias úmidos e chuvosos, em noites longas e frias. Em volta dele, a família conversava, fazia planos, ria, cantava, rezava… Em volta dele foram feitas confidências, elaborados muitos planos, dados conselhos, resolvidos problemas… Em volta dele crianças fizeram temas de escola, estudaram, leram, escreveram… Em volta dele, mulheres confeccionaram bordados, remendaram roupas, teceram mantas, blusas e meias…  Em volta dele, nos filós com vizinhos, homens trocaram experiências, discutiram construções, plantações, colheitas, compras e vendas… Em volta dele, o chimarrão foi passado de mão em mão, o copo de vinho deu cor e coragem aos mais tímidos, o café coado aqueceu muitos corações sofridos, a pipoca, o pinhão, a batata doce, o amendoim saciaram a fome e uniram os que dele se acercavam.

O fogão da minha infância era preto, grande, com chapa inteira (difícil de ser limpa); depois foi substituído por um fogão da marca Geral, de cor branca com pequenas flores. Era mais moderno, mas mesmo assim, continuou com sua função acolhedora. Tanto um quanto o outro estão nas mais queridas memórias da minha infância…

Nosso velho fogão, ainda guardado no porão de nossa casa de infância, está tão presente em minha vida que lembro dele como sendo alguém da família, um membro participando ativamente de todos os momentos. Nosso velho fogão jamais fez greve, jamais cobrou pelos serviços prestados, não deixou de trabalhar nem em feriados nem em finais de semana. Esquentou pés e mãos, secou roupas, viu as crianças nascerem, crescerem, tornarem-se homens e mulheres, acompanhou namoros e casamentos, ouviu histórias, segredos, discussões, repreensões, brigas e… nunca emitiu opiniões, nunca interferiu em nada. Foi ouvinte atento e discreto; foi testemunha de chegadas e partidas, de vida e morte. Foi tão terno quanto um coração infantil, tão ardente quanto corações dos jovens apaixonados, tão amoroso e acolhedor quanto o coração materno, tão compromissado quanto o coração paterno…

De ti, meu velho fogão de infância, as mais belas recordações. Para ti, meu velho fogão preto, meu carinho neste texto simples, mas sincero. Que muitos fogões sejam acesos neste inverno chuvoso para aquecer corações tristes ou alegres, apaixonados ou desiludidos, amorosos ou chorosos. Que o inverno chuvoso e nevoento nos aproxime e nos faça mais solidários. Que as tardes frias, de chuva fina … tragam sempre doces lembranças…

Publicidade
Publicidade
    Publicidade