Cadê a árvore que estava aqui?
Quando eu era criança, as cantigas de roda eram comuns. Não tínhamos TV, celular, tablet, internet, facebook, whatsApp, iPhone, iPad, etc…. Por isso, éramos crianças que brincavam, cantavam, pulavam… E, dentre tantas das nossas brincadeiras, havia a que se recitava em pergunta-resposta – hoje chamamos de parlenda. (Parlendas são versos, geralmente infantis, com temática simples, rima fácil, recitados nas brincadeiras; fazem parte do folclore brasileiro, pois representam a tradição cultural do povo simples do interior).
Dentre as diversas que sabíamos, a mais comum era “Cadê o toucinho que estava aqui?”. Lembrando: Cadê o toucinho que estava aqui? O gato comeu. Cadê o gato? Foi pro mato. Cadê o mato? O fogo queimou. Cadê o fogo? A água apagou. Cadê a água? O boi bebeu. Cadê o boi? Amassando o trigo. Cadê o trigo? A galinha espalhou. Cadê a galinha? Botando ovo. Cadê o ovo? O padre comeu. Cadê o padre? Rezando missa. Cadê a missa? A missa acabou.
Lembrei desta parlenda ao chegar à entrada do Clube Atlântico – Rua Jerônimo Teixeira – Erechim/RS. Na semana de 10 a 15 de agosto/2015, havia algo estranho lá, faltava alguma coisa. A rua estava mais aberta, mais clara, com cones laranja para chamar a atenção dos motoristas que por ali transitavam. Pedras revoltas, terra removida e, aí percebi o que faltava. Perguntei a quem estava comigo: Cadê a árvore que estava aqui? Cadê o ipê lindo, que deveria estar florido? Cadê o ipê, uma das árvores símbolo do Rio Grande do Sul? Cadê a beleza daquele tronco, a sombra das folhas verdes, a beleza das flores lilases? Cadê as azaleias em flor, as pequenas árvores, os arbustos? É setembro, mês de flores, de primavera… Com sentimento de perda, “vi” a resposta para meus Cadês: A motosserra cortou… o caminhão levou… o fogo queimou… a cinza sumiu…. o vento levou. Alguém mandou cortar para ampliar estacionamento de carros. Pronto. Fim. Acabou. E as perguntas que ficam: Cadê um planejamento urbano que possa impedir que sejam derrubadas árvores, destruídos canteiros, alterado o sistema ecológico, para dar lugar a carros? Cadê nossa consciência da necessidade de encontrarmos estratégias diversas para solucionar nossos problemas sem que a natureza seja destruída, os ecossistemas alterados para dar conforto e comodidade a algumas pessoas? O ipê levou mais de 30 anos para chegar ao porte em que estava, dando sombra, espalhando beleza, sendo abrigo para pássaros e insetos, ajudando a purificar o ar que respiramos. E, em poucas horas, tudo sumiu.
Fica a pergunta: Cadê a árvore que estava aqui?
Responda quem souber e puder….