Opinião: “Vidas estão em jogo”
Confira artigo sobre a atual situação do Banco de Sangue de Erechim
Jackson Luis Arpini
Cirurugião-dentista
Na última sexta-feira, 24, lideranças de vários segmentos, em especial, da área da Saúde, se reuniram na sede da Amau – Associação dos Municípios do Alto Uruguai para debater, infelizmente, mais uma vez, a reabertura do Banco de Sangue de Erechim, que se encontra interditado há seis meses.
O encontro promovido pela Amau, ABRSE – Associação Beneficente dos Receptores de Sangue de Erechim e Prefeitura de Erechim, município sede da unidade hemoterápica, contou com a presença de prefeitos, representantes da Fundação Hospitalar Santa Terezinha, Hospital de Caridade, Hospinorte, Conselho Regional de Medicina, Sindicato Médico do Grande do Sul, Associação Médica do Alto Uruguai, Unimed Erechim, 11ª CRS, profissionais médicos, assessores jurídicos, Sindicato dos Estabelecimentos de Saúde, Agência de Desenvolvimento, Sindicato Rural, Câmara de Vereadores, Credenor, URI Erechim e imprensa.
As vozes representativas da reunião, talvez, uma das mais representativas dos últimos meses, se somaram, uma a uma, numa verdadeira corrente inquebrantável em prol da reabertura dos trabalhos do Banco de Sangue de Erechim, pela sua relevância para a região do Alto Uruguai.
“Vidas estão em jogo!”, exclamaram os presentes nas sucessivas falas. Estamos atualmente na dependência do Hemopasso, que tem, sob sua responsabilidade, abastecer um universo de 171 municípios e, pelos fatos vivenciados por quem está na porta dos hospitais ou nas UTIs, vem encontrando entraves para realizar, com presteza e agilidade, essa atribuição vital. Não por má vontade, mas sim, pela escassez do insumo.
Estamos vulneráveis por dois motivos: a distância e o insumo. Erechim e Passo Fundo estão distantes geograficamente 70 Km. O insumo, esse com asserção o mais preocupante, muitas vezes não está disponível no estoque o que resulta para nós, região, a expressão “não temos no estoque” ou “estamos no limite”. A patologia ou a urgência, por sua vez, não escolhe hora nem local, quantidade de bolsas, pacientes e, em geral, é para ontem.
Campanhas estão incentivando a doação de sangue Brasil afora, tendo em vista os baixos estoques do insumo. Esse assunto, pelo seu significado, está corriqueiramente na mídia e o Banco de Sangue está disposto a colaborar com a causa mas, lamentavelmente, segue com as portas cerradas. Aqui, oportuno ressaltar, que estamos com raízes fincadas em solo regional há 28 anos e possuímos um universo colossal de doadores – que na minha concepção é o seu maior espólio. Talvez interesses obscuros queiram isso.
O colegiado de atores não conseguiu entender que não haja, resguardados o cumprimento dos quesitos apontados como frágeis e que foram devidamente solucionados, que os responsáveis não autorizem a reabertura dos trabalhos. É imperioso que os processos de trabalho atendam ao preconizado para que o serviço possa ofertar hemocomponentes com segurança e, para isso, face aos apontamentos, mudanças foram realizadas no último semestre. A unidade de hoje não é mais a de outrora.
Fomos contemplados com o programa Hemovida do Ministério da Saúde, que visa informatizar todo o processo de trabalho, da coleta ao abastecimento. Fica a indagação. Seríamos contemplados pelo órgão federal caso a unidade não atendesse os requisitos?
Manifesto com robustez que as vozes dos presentes naquele momento representavam o conjunto da sociedade e foram uníssonas pela abertura das portas. Todos! Sim, todos saíram com a impressão de que não há motivos que justifiquem as portas estarem lacradas, e sim há obstáculos velados que não possibilitam o descerrar das portas.
Não estamos numa quebra de braço ou medindo forças região versus estado. Buscamos uma solução que atenda os interesses regionais, de modo singular, o direito à vida das pessoas. Num lampejo um participante, com muita propriedade, vozeou “a população é quem mais perde”. Verdadeiro!
O caminho mais curto e simples seria encerrar as atividades. Entregar as chaves ao Estado, redigir um ofício ao Poder Judiciário declinado do cargo de administrador judicial e ouvir, com zelo, o que minha filha diz diariamente. “Pai, larga o Banco de Sangue!”.
Mas as coisas não são tão simples assim. Por trás das portas interditadas há uma região aflita, hospitais laborando com insegurança, profissionais da saúde atuando com incertezas, pacientes sendo transferidos para outras localidades, quem sabe óbitos, e centenas, milhares de semelhantes que podem, a qualquer instante, serem protagonistas dessa história.
Não tenho, nesse momento, como declinar do ofício. Vamos ao limite das nossas forças. Percebo que as vozes locais e regionais estão afinadas e bradam pela reabertura do nosso Banco de Sangue.