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UM “CADÁVER” QUE NÃO CONSEGUEM MATAR…

A morte física de Fidel Castro Ruz reativou a raivosa 601ª tentativa de assassinato não já contra o nonagenário ancião, mas, essencialmente contra seu legado de luta por uma sociedade mais justa, igualitária, digna. Foi mais de meio século liderando esta luta nas condições mais penosas e arriscadas. Pessoalmente, Fidel Castro não precisaria se expor. […]

Por: Ernesto Cassol

A morte física de Fidel Castro Ruz reativou a raivosa 601ª tentativa de assassinato não já contra o nonagenário ancião, mas, essencialmente contra seu legado de luta por uma sociedade mais justa, igualitária, digna. Foi mais de meio século liderando esta luta nas condições mais penosas e arriscadas. Pessoalmente, Fidel Castro não precisaria se expor. Nascido em família confortável, dono de raros talentos e grau universitário, poderia ter usufruído das benesses do regime como tantos, inclusive seus iracundos detratores de Miami e além. (cf. Os últimos soldados da guerra Fria, de f. Morais, Fidel e a Religião, de Frei Betto).

A gélida manifestação de M.Temer sinaliza a que foi trazido. Já “ grande imprensa” em pleno velório estentoreia contra o “ex ditador” e o “atual ditador”, se referindo a Raul Castro. E a Folha de São Paulo corre a buscar informações no Cuba Archive, “liderado por uma associação de cubano-americanos que vivem nos Estados Unidos” dados de mortos, prisões, violações de direitos humanos…..tudo posto na conta do “ultimo mito comunista”, numa lógica obscena de que os escravos são culpados da violência de seu esforço pela libertação.(Trotski observava a singela diferença entre o escravo para romper grilhões e o escravocrata para mantê-lo nos grilhões. Ver A Nossa Moral e a Deles.) A “grande imprensa “, geralmente por seus arautos e cumplices, não poupou críticas. Só faltou pedir a exumação política de Fulgêncio Batista. Em manifestação hienesca, os emigrados cubanos de Miami não deixaram de vociferar saudosos dos tempos antes da Revolução. Luis F. Pondé desfralda seu rancor gongórico em textos “O pesadelo de Fidel” (FSP, 5/12/16). João Pereira Coutinho em “Adeus às armas”(FSP, 6/12/16) acha “degradação” escrever sobre Fidel e desfralda avassaladora petulância totalmente carente de argumentação. E Folha vai ouvir logo a opinião de anti-castristas como Pedro Juan Gutiérrez(FSP, 4/12/16). Com Joani Sanchez daria na mesma. Já Anthony Depalma em “Fidel, o Mestre Criador de Mitos (FSP, 4/12/16) inventa que Fidel inventou um “disfarce que lhe foi mostrado durante tantos anos por um mestre na criação de mitos”. Estranho “prestidigitador” analista político….. Para o jornalista Leandro Narloco “Fidel não passava de um senhor de escravos perdido no século 21” (2/12/16). Igor Gielow, em Folha SP, 1/12/16, desdobra texto em que mostra dificuldade em  definir responsabilidade e número de vítimas, mas, não se peja de manchetear contrariamente à matéria, “Ditadura Cubana é a mais letal das Américas”. O sofisticado sofista tão prolifico em argumentos surpreendentes, Demetrio Magnoli, chega à bizarra conclusão:” A Cuba pré-castrista tinha dados de saúde e educação tão notáveis quanto os atuais”. Piadas lúgubres numa hora dessas…..

Que os R. Mendelski e R. Azevedo procedam à campanha de Miami pró Fulgêncio Batista, vá lá. É toda uma vida jogando neste time. Confira-se, V. G., Diario da Cia, por Philip Agee, Sem lugar para se esconder, de Glenn Greenwald, Cuba hoje, de Vladimir C dos Santos. Os próprios informes da Anistia internacional, Operación Peter Pan, de R.T. Crespo/J.B. Marrawi…É claro, tudo está sujeito à análise criteriosa e responsável, inclusive Fidel e a Revolução Cubana. Surpreende, todavia, “neutralidade” de L.F. Verissimo: “Você pode admirar a Revolução que derrubou um ditador corrupto e instalou um governo socialista que priorizou a saúde e a educação do povo, além de resistir a anos de bullyng do seu vizinho americano, ou lamentar que os mesmos guerrilheiros que incendiaram a imaginação do mundo com suas vitórias adotassem um regime totalitário que prendeu opositores e desrespeitava direitos humanos.”(ZH, 1/12/16)

Mais doloroso é ler o ex-banido Flavio Tavares(ZH 3 e 4/12/16): “libertário e libertador, assimilou os absurdos do stalinismo. A grandeza coabitou com o despotismo e ele se vestiu de déspota também. Um “déspota iluminado”, mas déspota enfim”. Flavio Tavares esqueceu sua memória. Entendeu muito pouco e muito mal. Deveria, no mínimo, rechear com dados fidedignos tão absurdas afirmações que parecem vindas da Radio Marti e da Juanita Castro. Poderia Flavio dizer algo sobre o embargo de mais de meio século, a espionagem de mais de meio século, a sabotagem de mais de meio século (cf. Os Últimos Soldados da Guerra Fria, Playa Girón, Sierra do Escambray, Guantánamo, Operación Peter Pan, Cuba Hoje de Vladimir Santos, a sabotagem em aviões, hotéis, plantações, rebanhos…)

O decano Clóvis Rossi pode torcer “a esquerda morre junto com Fidel Castro”(FSP Especial, 27/11/16) como quiser. Fidel Castro, contrariamente à multidão de afirmações levianas, retirou-se da presidência aos 82 anos e pediu para não ser reconduzido por “não ter mais idade e saúde para tão elevada função”. Em seu testamento pediu para não ser objeto de culto. Entretanto, sua obra e seu legado, que não são apenas de um homem mortal, frutificam por gerações em vida, fraternidade e dignidade que os arautos do imperialismo e seus “direitos de escravizar” não conseguiram matar. Cabe às gerações atuais e futuras preservar, avançar e desbastar a construção de sua sociedade sem tomar emprestado pseudo gurus de Miami, Porto Alegre ou alhures.

Ernesto Cassol

Prof. URI Erechim

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