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#Artigo – Coincidências e esperança

O Dr. Desembargador Breno Pereira da Costa Vasconcellos fala sobre a era de ouro da Magna Grécia – Peloponeso e colônias semeadas basicamente na orla do Mediterrâneo e do Mar Negro – atingiu nível até hoje insuperável de genialidade pensante

Por: Breno Pereira da Costa Vasconcellos
Fotos: Ilustração da ''Caixa de Pandora'' - Internet

A era de ouro da Magna Grécia – Peloponeso e colônias semeadas basicamente na orla do Mediterrâneo e do Mar Negro – atingiu nível até hoje insuperável de genialidade pensante. Meramente exemplificativas, reporto-me às contribuições definitivas em educação, matemática, método científico, política, literatura, teatro, escultura, arquitetura e a estruturação do lógico. Sociedade organizada politicamente, gênios em profusão, colonialismo agressivo e privilegiada posição nos limites com o Oriente (cidades-estados encravadas na Ásia) permitiram aos gregos deixar, entre outros legados, a síntese do pensamento. Que vale até hoje. Basta referência ao raciocínio lógico e às várias escolas de filosofia. Nesta seara, quase tudo o mais produzido após o iluminado período criativo, data venia, é mera reciclagem – às vezes, sofrível – do pensamento clássico grego, porque a alma humana é imutável.

E o grande salto da civilização grega ocorreu quando souberam fazer incidir a Razão sobre sua herança religiosa e mitológica, transformando-a, numa transição suave e sem quebra, em filosofia, ou seja, numa forma racional e não mítica de encarar o mundo (excerto do prefácio de W.K.C. Guthrie a Principium Sapientiae – as origens do pensamento filosófico grego, de F.M. Cornford, editado pela Fundação Calouste Gulbekian, Lisboa, 3ª ed., 1989).

E a origem da presente crise? Questiona-se o quê ou quem deu início ao pandemônio. A resposta, mesmo estribada em evidências e indícios, será objeto de controvérsia e descrédito, porque os fatos – desde o início da pandemia – restaram nebulosos.

Em implausível cenário de filme de terror B, se a cepa do Covid-19 fosse – hipoteticamente – criação humana de laboratório qual Frankenstein e tivesse sido liberada no mundo, provocaria genocídio desenfreado.

No mundo real, os protocolos de contenção da cepa do vírus foram rompidos por descumprimento ou falibilidade de códigos de segurança. Seja o epicentro na transmissão do vírus a humanos por ingestão de animal silvestre, seja liberação de patógeno contido em laboratório, transparece a falha humana. Ou em barreira sanitária, ou em descumprimento ou em erro de formulação de chaves de segurança em laboratório.

A ceifa indistinta e indiscriminada de vidas é fato. O potencial de destruição equipara a criatura liberada a uma arma biológica. Também fato. Gerou crise humanitária global, muito além do despreparo de sistemas de saúde ou da ausência de uma vacina.

A caixa de Pandora foi aberta. E há infinidade dessas caixas espalhadas pelo mundo dito mais avançado tecnologicamente. Com controles sanitários e/ou protocolos de segurança falhos, porque dependentes da humana condição. Pânico justificado.

Artemidoro, oniromante grego, nascido em Éfeso por volta do século II, sistematizador de sonhos e suas interpretações, hoje certamente seria tomado de surpresa e medo se lhe relatassem uma infinidade de pesadelos anotando proximidade ou entrada do deus Asclépio em todas as residências do mundo, anunciando enfermedad y peste, pues es en essas circunstancias cuando los hombres tienen necesidad mayormente de él (in La Interpretación de Los Sueños, Editorial Gredos, Madrid, 2002, livro II, página 205).

Não é preciso poder divinatório para identificar a realidade do pesadelo.

A lógica formal respalda-nos a enfrentar este pandemônio no mundo real e afasta o pensamento de ato de ira divina. Filosofia pura, sempre respeitadas crenças pessoais.

A fuga de patógeno agente aniquilador de vidas e as consequências jamais cogitadas pelas autoridades detentoras deste poder destrutivo não podem ser tidas como coincidência de eventos.

A ocorrência de surto de SARS, em 2003, epicentro na República Popular da China, não foi noticiada de imediato à OMS. Igualmente, entre outubro de 2004 e fevereiro de 2005, o vírus da pandemia gripal de 1957, por erro, foi liberado nos EUA e enviado a milhares de laboratórios de 18 países, inclusive Brasil (cf. Frederick F. Cartwright & Michael Biddiss, in Grandes Pestes de la Historia, El Ateneo, Buenos Aires, páginas 254-255 e 258-259).

Pronto. A caixa de Pandora é quase esvaziada, seja qual motivação se lhe dê. Mero acidente ou acidente e posterior aproveitamento oportunista, geopolítica, domínio comercial e militar global, ausência total de compaixão com o genocídio em curso etc. Sem necessidade de ser avalizada em teorias conspiratórias e sem criador original, o caos na essência.

Não houve funesta coincidência de fatos. Houve acumulação de erros e de pesadelos.

Inépcia de manejo da crise entre nações, decisões erráticas internamente e oposição oportunista em todos os lugares. Estagnação das vidas. Atoleiro econômico. Mais do caos.

Voltemos à Grécia Clássica. Pandemia, pandemônio e pânico são gregas na etimologia (Cunha, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 4ª ed., Lexikon, Rio de Janeiro, 2010, páginas 472-3). Paridas do mesmo étimo, são sempre contemporâneas das calamidades. Caos grego é o abismo insondável, anterior à criação, personificando também, ao revés, grande fonte de energia criadora (Brandão, Junito de Souza. Mitologia Grega, vol. I, 3ª ed., Vozes, Petrópolis, 1987, páginas 184-5).

No mito de Pandora, exatamente como agora, uma única coisa restou dentro da caixa: a esperança.

O ser humano vive de fé e esperança, ambos componentes do arsenal de recursos para sobrevivência da espécie. Isso também não é coincidência. Recurso mental do indivíduo, fortalecido no coletivo da espécie humana pelo histórico enfrentar de eventos destruidores. O pânico paralisa; com esperança, raciocina-se. Ler, conversar, pensar, agir. Entender o caos e o pânico. Confrontá-los.

Raciocínio e trabalho. Essencialmente no momento, precisamos voltar a trabalhar com mínimo de foco na atividade laboral em si-mesma. A visualização do sentir-se útil fortalece a autoestima e o amor-próprio, renovando a esperança no futuro.

Obviamente, há inúmeras saídas para superar a atual depressão econômica mundial. Ideias ainda a serem criadas ou existentes, implementadas com planejamento. Recursos humanos não faltam para afastar o medo do caos. Na visão cosmogônica chinesa, caos é o espaço homogêneo, …, que equivale à criação do mundo. Assim, estar desorientado é entrar no Caos, de onde não se pode sair, a não ser pela intervenção de um pensamento ativo (cf. Junito de Souza Brandão, op. cit., pág. 184, grifos no original).

Numa livre interpretação, pensar libera a energia criadora do Caos original. Ler, conversar, pensar e agir são atitudes positivas para recuperarmos o curso da nova normalidade.

A esperança não nos foi tirada, pois componente da alma humana. A pandemia e o seu aparente caos devem ser enfrentados com racionalidade, fé e esperança. Sem pensamento mágico ou crédito a coincidências.

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Quem é Breno Pereira da Costa Vasconcellos?

Consultor jurídico, inscrito na OAB/RS 15.642.
Atuou, desde os 25 anos, como Juiz de Direito nas Comarcas de Jaguarão, Mostardas, Seberi, Santo Ângelo, Viamão e Porto Alegre (na capital, atuou como titular na 16ª Vara da Fazenda Pública, 15ª Vara Cível, 1º Juizado e 7ª Vara Cível).
Trabalhou nos projetos de Conciliação Cível, Sentença-Zero, Falência e Concordatas, bem como de Família e Sucessões.
Em 1998, passou a atuar como juiz convocado na 2ª Câmara Especial do TJRS.
Promovido a Desembargador em 2001, ocupou o cargo até aposentar-se em 2016.
Com um senso de justiça inerente, exerceu a magistratura com muito zelo, respeito e seriedade. Seu nome é referência em celeridade processual e imparcialidade nas decisões. O cuidado, a dedicação e a honesta preocupação com cada caso são algumas das distinções que levam seu trabalho à impecabilidade.

Vasconcellos e Munhoz

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