Artigo: Mehr Licht!
Confira artigo enviado pelo presidente da Unimed Erechim
Dr. Alcides Mandelli Stumpf
Médico
Mais luz! Foram estas as últimas palavras de Johann Wolfgang Von Goethe, o maior escritor alemão de todos os tempos, em seu leito de morte. Morte, aliás, é o tema de hoje.
Faz anos, li uma bela crônica de Carlos Heitor Cony sobre a data destinada a Finados – e, pela graça, não mais esqueci. Contava o acadêmico, com sua iônica e agradável prosa, uma historinha que mostra bem o que muitos sentem nesse dia e, no mais das vezes, não sabem externar. Cheguei a guardar o recorte do jornal, mas acabei perdendo-o com o tempo, como já perdi muitas coisas boas da vida na memória, nas gavetas, nos arquivos, nos computadores e no próprio abandono.
Dizia o mestre mais ou menos assim:
Eis que estavam num castelo, no interior da Inglaterra, um lorde e seu mordomo a contemplar a pradaria ao cair da tarde. A paisagem era límpida, verdejante, bucólica e só se ouvia e sentia o leve sussurro e olor da brisa que soprava do poente. O nobre, acomodado em uma profunda poltrona, quase ausente, fumava seu bom cachimbo e contemplava absorto o horizonte, onde se acumulavam algumas nuvens cinzentas, prenunciando chuva, sob o sol preguiçoso. O mordomo, que por sua vez se chamava James (e a aqui, como visto, cabe um parêntesis: não sei porque todos os mordomos ingleses se chamam James, mas deixemos por isso mesmo), aproximou-se portando uma elegante bandeja com um copo do mais fino scotch whisky. Gentilmente, ofereceu-a ao seu senhor. James, no impulso e delicadeza do momento, aproveitou o clima mais que ameno para puxar uma conversa. Mirou, com vagar, as nuvens agora densas e mais próximas e falou ao lorde: ”Sir, creio que teremos chuva ao final da tarde…”. Indagação essa prontamente atendida pelo patrão, que, num leve despertar e com a fleuma aristocrática dos lordes ingleses, respondeu: “Engano seu, meu caro James. De forma alguma teremos chuva ao final da tarde. Na verdade, você terá a sua chuva e eu terei a minha”, dando a conversa por definitivamente encerrada.
Tal relato, caro leitor, mostra com extrema propriedade como de fato as coisas são e como acontecem diferentemente para cada um e cada qual. A chuva do lorde não era a chuva do James; e, tampouco, a chuva do mordomo pertencia ao lorde. Embora fosse uma mesma chuva, comum aos dois, cada um a via e a sentia de forma peculiar, a seu modo e jeito.
O mesmo ocorre com os nossos mortos. Embora, por convenção, todos guardem um dia comum de homenagens, 2 de novembro, de forma alguma são lembrados ou pranteados do mesmo modo, intensidade ou qualidade de sentimentos – a bem da verdade, a lembrança de alguns até traz certo alívio.
Cada pessoa chora os seus ausentes, as suas dores íntimas lá do fundo da própria alma; suas saudades infinitas, distantes e irremediáveis. Ninguém, por mais próximo que seja, consegue penetrar no pranto aflito e silencioso do outro ante a partida dos que mais amamos.
Portanto, caro leitor, fique com suas dores, saudades e ausências, que eu fico com as minhas. Entenda que a vida é assim mesmo; permaneça quieto, silente. Não reparta com ninguém o que é impossível dividir. Lembre – se possível com carinho – de seus mortos, e eu lembrarei os meus. Aprecie a sua chuva que não é a minha, embora nos molhe a todos.
E para desanuviar um pouco o ambiente e esta melancólica crônica, cito Machado de Assis, o mestre dos mestres, que, com seu fino humor e eterna sabedoria, certa vez escreveu: Está morto. Podemos elogiá-lo à vontade. Eis aí, a meu ver, uma grande verdade.
Basta, por hoje chega. Não mais falarei em morte. Talvez até fale de aniversário, que é aquela data curiosa que comemoramos por estar um ano mais próximo da morte.
Definitivamente finalizando, deixo um último e útil lembrete: Se o distinto leitor tiver mais de 50 anos e acordar certo dia sem nenhuma dor – nenhuma dorzinha mesmo -, cuidado! Infelizmente, o amigo poderá estar morto e não saber. Na dúvida, faça como Goethe, peça mais luz, muita luz… E veja o que acontece.