Waterloo: 200 anos
NOTA: A primeira parte deste trabalho “Waterloo: 200 anos” foi publicada no Jornal Voz, de Erechim, 22 à 24/06/2014, Pg.6.
Ernesto Cassol
Prof. na URI / Erechim
“Em 15 de junho, com 73000 homens, ele invadiu a Bélgica. Seu único trunfo era bater separadamente os exércitos inimigos antes que se reunissem. As tropas que estavam na área eram formadas por prussianos e outras por ingleses, belgas, neerlandeses e alemães instalados na Bélgica. Napoleão tentaria bate-los para forçar algum armistício com as nações, que estavam com seus exércitos mais distantes da França. O desafio não era fácil. O exército anglo-batavo-alemão contava com 93000 homens, liderados pelo duque de Wellington. O prussiano tinha 117 mil homens, comandados por uma velha raposa, general Blücher. Mesmo em inferioridade numérica, Napoleão teria de atacar. Dentro de um mês, o exército austríaco de 210 mil homens, outro russo, de 150 mil, e um terceiro austro-italiano de 75 mil invadiriam a França pelo norte e pelo sul”. (http:pt.wikipedia.org/wiki/batalhadewaterloo).
À noite de 20 de março de 1815 frenéticas multidões acolhiam nas Tulherias apoteoticamente Napoleão em Paris que, burlando a vigilância inglesa escapulira da Ilha de Elba e numa marcha triunfal e incruenta via Gap, Grenoble e Lion, força a fuga do Bourbon Luis XVIII, reposto no trono de França pelas baionetas aliadas. Nos Cem Dias Napoleão propõe negociações de paz ás potências aliadas e liberaliza o regime internamente. As potências aliadas sequer lhe respondem. Só resta a Napoleão a solução das armas já que o Congresso de Viena lhe põe a sétima coligação, regada, como de hábito, pelo ouro inglês e já que sequer as cláusulas de sua abdicação primeira em Fontainebleau eram cumpridas.
Nenhuma campanha fora tão bem planejada e em nenhuma outra ocasião a sorte lhe fora tão adversa. Afora traições e graves imprudências- Murat, vg, – infortúnios de toda espécie, culminando com o forfait de Grouchi, determinaram a derrota de Napoleão (ver, p.ex, as Memórias ditadas em Santa Helena, os Cem dias, de Blond, J.Tulard, Humanidade e Lutas Sociais, v3, de O.A.Ohlweiler, Os Miseráveis, de V.Hugo, Stendhal…)
Qual o significado de Waterloo? Quais as consequências? Qual o projeto napoleônico? “Talleyrand foi porém, um homem de novo período burguês, não só porque, traindo todos os governos que se seguiram, serviu invariavelmente, durante toda sua vida, e contribuiu para garantir todas as conquistas que a grande burguesia da revolução efetuara, as que ela procurou garantir durante o reinado de Napoleão, como depois, mas, também por ter sido, até em seu procedimento e em seus métodos, um diplomata dessa nova era burguesa. Não era a “corte” aristocrática com seus interesses de casta, não era a nobreza com seus privilégios feudais, mas, o Novo Estado burguês, fundado pela revolução, com suas necessidades e seus problemas de política externa, que representava, Talleyrand, “a França”. Sabia muito bem que todas as intrigas de corte e de alcova, todas as comédias de emissários e agentes secretos, todos os cálculos baseados na influência de tal ou qual favorita ou na devoção supersticiosa de tal ou qual monarca, todas as sutilezas e futilidades da diplomacia do século XVIII podiam, talvez, ser ainda empregadas com sucesso, mas, que chegara o tempo em que, interna como externamente, era preciso confiar nos banqueiros e não na amante do rei, nos títulos da bolsa e não nas correspondências íntimas interceptadas; época em que os duelos eram feitos a golpes de tarifas aduaneiras e não cruzando-se espadas. Agia consequentemente, por meio de declarações verbais, notas, memorandos, pelo envio de representantes diplomáticos acreditados e se esforçava por fazê-lo, se necessário, através de demonstrações militares – o que era mais raro ou de hábil e oportuna manobra de reaproximação com tal ou qual grande potência. Era um verdadeiro mestre nesta arte. Servidor de um estado burguês, Talleyrand distinguia-se dos diplomatas da velha escola, que não compreendiam absolutamente que a primeira metade do século XIX não apresentava senão uma pequena analogia com a metade e o fim do século XVIII. Não tinha nada de comum com o chanceler russo Karl Vassilievich, cujo orgulho consistia em haver sido durante toda a sua vida o fiel servidor e criado de Nicolau I.” (Fonte: Tarlé, E. Talleyrand, um diplomata da burguesia ascendente. Trad. P. de Alcântara. Ed. Civ. Brasileira, RJ, 1965. P4).
“A necessidade de algodão, de açúcar, de café, tornou-se uma arma contra Napoleão a quem um erro econômico prejudicou bem mais que a inimizade dos reis. A Inglaterra, por seu lado, mostrava quão poderosa era, pois poderia passar sem a Europa e os planos de Willian Pitt era dotados por Canning (George,1770-1827) e por Castlereagh (Henry Robert Stewart, marquês de Londonderry, Visconde, 1769-1822), convencidos, como toda nação, da necessidade de empreender-se uma luta mortal contra o domínio de Napoleão. O imperador declara o Bloqueio da Inglaterra, mas não podia colocar um navio ao mar, que não fosse tomado pelo britânicos; a Inglaterra, afirmando que a bandeira neutra não resguardava a mercadoria – e se essa fosse destinada à costa francesa, seria confiscada – aniquilou o comércio da França.” (Fonte: Douglas Michalany. História das Guerras Mundiais. Vol. III, Gráfica Editora Michalany, SP.1967, p187).
“O caráter essencial do sistema econômico napoleônico consistia deste mercado para a indústria francesa, à qual as outras partes do Império deveriam fornecer os produtos de que ela necessitava.” (Fonte: Tulard, Jean. Napoleão, o Mito do Salvador. Casa Jorge Editorial, Niterói. RJ, 2996 p.192).
À burguesia mercantil, industrial e financeira da Inglaterra, interessava impedir que a França se desenvolvesse e rivalizasse industrial e tecnicamente, interessava que as velhas monarquias dos Impérios austro-húngaro, russo, e alemão preservassem a servidão feudal e suas arcaicas estruturas administrativas e jurídicas sob a suspiciosa aprovação de seus cleros. Para impedir as conquistas da revolução francesa e do projeto napoleônico tudo valia no monumental conluio entre a hegemonia da Revolução Industrial e a “vanguarda do atraso” dos impérios aristocrático-feudais do continente europeu. “O ouro inglês não ficara inativo no continente. Ele conseguiu até uma coalisão, a terceira contra a França. A Rússia deixou-se convencer sem dificuldades: Alexandre I invejava Bonaparte, a anglomania triunfava em São Petesburgo, onde a execução do duque D’Enghien fora bastante comentada. O principal conselheiro do czar, o polonês Czartorysky, incitava seu senhor a retomar a guerra contra a França. A Inglaterra prometia 1.250.000 libras por ano para cada mil homens engajados no conflito pela Rússia. A Áustria, descontente com os remanejamentos territoriais decididos pela França na Alemanha e na Italía, juntou-se à coalisão integrada pelos Bourbons de Nápoles.” (Fonte: Tulard, Jean. Napoleão, o Mito do Salvador. Niterói, Casa Jorge Editorial, 1996. P150).
A realização das conquistas burguesas, via revolução e Napoleão, estruturadas no Código Napoleônico e no império francês, indicavam que a França se industrializaria, que os impérios austro-húngaro, alemão e czarista finalmente superariam suas feudais estruturas e apanágios monárquicos. A política externa de Napoleão visava o equilíbrio e cooperação mundial estribado num poderoso tripé reciprocamente auto regulável:
- O império inglês com sua hegemonia industrial, técnica e financeira, controlada por uma monarquia parlamentarista liberal. Senhor de um vasto e rico império colonial, se expandiria além mar.
- A França, via centralização e direção imperial, lideraria o processo de industrialização e modernização européia, suas unificações nacionais rumo à União Européia – “Europa para europeus” -. O bloqueio Continental seria o escudo protetor desse projeto essencial que se contrapunha ao bloqueio e à pirataria marítima inglesa.
- O Império Czarista exerceria uma tutela sobre a Rússia e a Eurásia. Ao mesmo tempo que este global tripé estabeleceria uma tutela evolucionista calcada nas conquistas da Revolução Francesa e do Liberalismo inglês, impunha-se um acordo da triarca e desta com a respectiva esfera de influência e graus de conexão. Ao invés da impiedosa guerra, os três blocos estabeleceriam um acordo rumo à paz mundial baseada num equilíbrio progressivo econômica, política, militar e culturalmente. Os componentes deste bloco numa relação dinâmica e dialética também evoluiriam para atingir e ampliar este equilíbrio para transmudá-lo de vertical para horizontal.
“A revolução burguesa francesa do sec. XVIII provocou a resistência encarniçada da aristocracia feudal tanto no interior do país como fora dele. Os governos reacionários da Europa tinham preparado uma intervenção armada, dirigida contra a França revolucionária. Os Jacobinos tiveram que defender a república, fazendo frente a toda uma coligação hostil à revolução. A consolidação da burguesia em França suscitou um agudo descontentamento entre a nobreza reacionária que tinha perdido seus privilégios. Estavam tanto contra o governo do Diretório como contra o de Napoleão.
Quando o poder deste último foi derrubado e os Bourbons se assenhorearam do trono francês, iniciou-se em França a reação desenfreada. O governo deu abertamente a sua proteção aos antigos emigrados, aos jesuítas, e em geral, ao clero católico; desencadeou o terror contra as forças progressistas do país e declarou guerra aberta a todos os princípios liberais e democráticos.
Depois do Congresso de Viena, a reação ergue-se em todas as partes da Europa. Marx assinala que todos os países, depois de 1815, “…os partidos contrarrevolucionários tinham nas suas mãos as rédeas do governo. Os aristocratas feudais imperavam em todos os Gabinetes, de Londres a Nápoles, e de Lisboa a São Petersburgo” (1). Para a luta comum contra o movimento revolucionário e para o apoio aos tronos existentes, constituiu-se a união dos três governos monárquicos da Europa, Rússia, Áustria e Prússia a que se deu o nome de Santa Aliança. A ela aderiram, também, mais tarde, os governos da Inglaterra e da França. A reação tratou de afogar em todos os países o movimento revolucionário, travar as relações sociais burguesas e obstar a difusão da organização estatal burguesa na Europa.” (Fonte: V. Pokrovski (direção) História das Ideologias. 2ª ed. Editorial Estampa, Lisboa, 1973.p11).
Os magnatas do dinheiro farejavam onde investir seu dinheiro: “a verdade, porém, é que Rothschild sempre estava mais bem informado sobre os acontecimentos políticos que os demais especuladores da Bolsa. Um dos muitos agentes que ele tinha disseminados pelo mundo inteiro se achava em Ostende, aguardando as últimas novidades do campo de batalha. Um jornal holandês com a notícia da vitória de Waterloo lhe caiu nas mãos justamente quando um navio partia para as ilhas. Portanto, foi por intermédio desse agente que Rothschild foi a primeira pessoa de Londres – antes mesmo do governo britânico – a tomar conhecimento da derrota definitiva de Napoleão. O que lhe permitiu tomar providências necessárias na Bolsa.
Ainda mais importantes que os lucros aferidos nestas compras de títulos foram os que ele obteve nas operações cambiais. No dia seguinte à vitória de Waterloo a cotação da libra subiu vertiginosamente. Os empréstimos que Rothschild concedera aos aliados em libras depreciadas deviam agora ser pagos numa moeda que havia readquirido seu valor. Assim que os Ministros das Finanças de Berlim e de Viena fizeram o cálculo dessas diferenças do câmbio sob a luz da nova situação não lhes foi possível reprimir uma careta de desgosto. Finalmente o governo inglês, num gesto de liberalidade, pagou esta diferença de cambio. A confiança que Rothschild depositara na libra fora largamente recompensada.” (Fonte: Lewinsohn. Richard. Os Aproveitadores da Guerra Através dos Séculos. Livraria do Globo, Porto Alegre, 1942. P244).
Nos dias que se seguem a Waterloo, a vitória do capital hegemônico também age pela mão pérfida e perjura dos Fouché quando as Câmaras, forçando Napoleão à renúncia, improvisam um governo provisório e para tanto elegem um Diretório de cinco membros: “Apenas se reuniu o Conselho dos Cinco, e Carnot vai tomar posse da poltrona da presidência, a que tem direito, Fouché propõe aos colegas, como uma coisa natural, de se constituírem. “Que quer dizer constituir-nos? Pergunta Carnot admirado. “Mas, responde ingenuamente Fouché, eleger o nosso presidente e o nosso secretariado.” E acrescenta logo, com falsa modéstia: “Dar-vos-ei meu voto para a presidência”. Carnot se deixa embair e responde polidamente: “E eu vos darei o meu.” Ora, dois dos membros já foram secretamente comprados por Fouché. Assim, ele esta instalado na poltrona presidencial. Depois de Napoleão e de La Fayette, Carnot, ele também, foi felizmente eliminado, apesar de ser o homem mais popular da França, e em seu lugar está o mais astucioso de todos, Joseph Fouché, que se acha senhor dos destinos de seu país. Em cinco dias, de 13 a 18 de junho, o imperador perdeu o poder; em cinco dias de 17 a 22 de junho, Joseph Fouché apoderou-se dele, deixando enfim de ser servidor e, pela primeira vez, passando a ser senhor todo poderoso da França. Pode agora livre, inteiramente livre, entregar-se ao jogo amado e perturbador da política universal. Sua primeira medida, é claro, será a de se desembraçar do imperador.” (Fonte: Zweig, Stefan. Joseph Fouché. Retrato de Um Homem Político. Ed. Guanabara, Rio, 1934. P254).
Os vitoriosos de Waterloo, os mercenários que a libra inglesa contratou e as legiões de súditos feudais provavelmente não sabiam – tampouco queriam saber – que seu sangue daria mais um século de crassa dominação da burguesia industrial e financeira da Inglaterra. Mais sangue seria derramado nas rebeliões populares e greves – eis que se quer o direito de organização sindical e política era reconhecido à plebe, o regime político repressor se reinstalara com a desumana solidez do ouro e das armas, na França as rebeliões de 1830, 1848 trocaram de monarquia, reincidem no Império (imprescindível a leitura de K. Marx O DEZOITO BRUMÁRIO DE LUIS BONAPARTE, LUTA DE CLASSES EM FRANÇA), porém, as classes dominantes, aliadas ao “inimigo prussiano” ainda tem alento para exterminar os Comunards da Comuna em 1871 (A. Thiers que o diga…), rebeliões na Alemanha e sua unificação, bem como na Itália. A unificação alemã e italiana e sua industrialização tardia e subordinada a um modelo estatizante burguês, excluída do acesso às colônias, contém o terrível fermento do imperialismo e da guerra que explodirá mundial massacrando as ilusões da Revolução Industrial Inglesa (ver F. Engels. Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, E. Hobsbaun. A Era dos Impérios, M. Dobb, L. Hubermann, O. A. Ohlweiler…).
A férrea ausência de ao menos uma legislação trabalhista, salarial, previdenciária, social, deixa o Capital “livre” para desenvolver seus negócios. Marx e Lenin, sobretudo, evidencia sua dialética contradição intrínseca. O século XIX será do liberalismo, isto é, liberdade para o capital, isto é, não liberdade ao trabalhador, colonialismo, imperialismo. (Os Gobineau é a justificativa engendrada). Réplica desta avassaladora expansão do capitalismo, sobretudo inglês, de Waterloo a Versalhes: “Que tipo de classe operaria o capitalismo gera? Quais são as suas condições de vida, que tipo de comportamento individual e coletivo essas condições matérias criam? Engels dedica a maior parte do livro (capítulos 3,5 – 11) à descrição e análise destas questões, e com isso produz sua mais madura contribuição à ciência social, uma análise do impacto social causado pela industrialização e urbanização capitalistas, em muitos sentidos ainda sem igual. Ela deve ser lida e estudada em minúcias. A argumentação pode ser sintetizada como segue. O capitalismo lança o novo proletariado, muitas vezes composto de imigrantes com antecedentes pré-industriais, num inferno social em que são esmagados, mal remunerados e submetidos à fome, deixados a apodrecer em cortiços, abandonados, desprezados e coagidos não só pela força impessoal da competição, como também pela burguesia como classe, que os vê como objetos, e não como homens, como mão de obra e não como seres humanos (cap. 12). Apoiado pelo direito burguês, o capitalista impõe sua disciplina fabril, multa-se, faz com que sejam presos, impõe-lhes normas a seu bel prazer. A burguesia como classe, os discrimina, cria contra eles a teoria multhusiana da população e lhes impõe as crueldades da “Nova Lei dos Pobres”, de 1834. Não obstante, essa desumanização sistemática também mantém os trabalhadores fora do alcance da ideologia e da moralidade burguesa. A industrialização e a urbanização crescentes os obrigam a aprender as lições de sua condição social, e, ao se concentrarem nelas, eles tomam consciência de sua força. “Quanto mais perto os trabalhadores estiverem ligados à indústria, mais avançados estarão.” (Contudo, Engels observa também o efeito radicalizador da imigração em massa, como a que ocorria entre os irlandeses).
Os trabalhadores enfrentam sua situação de diferentes maneiras. Alguns sucumbem a ela, perdendo todos os princípios morais; mas, o aumento dos índices de alcoolismo, perversão, criminalidade e gastos irracionais é um fenômeno social, produto do capitalismo, e não deve ser explicado como resultado da debilidade e da falta de objetivos das pessoas. Outros se submetem passivamente à sua sina e vivem da melhor forma possível como cidadãos ordeiros e respeitáveis, não se interessam pelas causas públicas e com isso na verdade ajudam a classe média à apertar os grilhões que manietam os trabalhadores. Mas, humanidade e dignidade reais só são encontradas na luta contra a burguesia, no movimento operário que as condições dos trabalhadores inevitavelmente produzem.
Este movimento passa por varias etapas. A revolta individual – a criminalidade – pode ser uma; a destruição de máquinas, outra, embora nem esta nem aquela ocorram sempre. O sindicalismo e as greves são as primeiras formas gerais tomadas pelo movimento.” (Fonte: Hobsbawn, E. J. Como Mudar o Mundo: Marx e o Marxismo, 1840-2011, São Paulo, Cia das Letras, 2011 p.92).
Waterloo representa a derrota de um projeto burguês emergente que busca cavar seu espaço pela industrialização, pela modernização política e jurídica, pela busca de um equilíbrio internacional anti-hegemonia, pelo papel preponderante do Estado, fatores que dialética e geopoliticamente esquivariam o mundo dos horrores da dominação inglesa do séc. XIX, nos poupariam das catástrofes das Guerras Mundiais da primeira metade do séc. XX e ensejariam os movimentos sindicais e políticos para formas de organização social mais promissora. Waterloo brecou a história por largo período, como Stalinismo e a desagregação da URSS no séc. XX e as intervenções massacrantes da potência imperialista contra Irã, Iraque, Cuba e o Terceiro Mundo no final do séc. XX e no início do XXI. Napoleão não foi o único derrotado. Grouchi não foi o único culpado. O proletariado mundial, sobretudo inglês, também padeceu seu cativeiro agrilhoado a este sistema da mais vasta liberdade…. para o capital. “E, como diz Carlyle, não admite outra relação entre homens exceto a do pagamento à vista. Mesmo os laços entre ele e a mulher não são em 99% dos casos mais do que um pagamento à vista. A escravização miserável em que o dinheiro coloca o burguês marca a própria linguagem devido ao domínio da burguesia. O dinheiro determina o valor do homem; este homem vale 10 mil libras (the is Worth ten thousands pounds), isto é: ele as tem. Quem quer que tenha dinheiro é respeitável, pertence à melhor categoria de pessoas (the better sort of people), é influente e o que realiza é considerado em seu meio”, escrevia F. Engels já em 1845, em A Situação Da Classe Trabalhadora Na Inglaterra. Waterloo abriu à burguesia inglesa a ditadura de seu parlamentarismo liberal econômico. Ela usou sem piedade ao longo de todo o séc. XIX a miséria do proletariado inglês e das colônias mundo a fora ( ver o Imperialismo, de Lenin, Pannikar…) o demostram à farta.
A derrota em Waterloo, Bélgica, em junho de 1815, e o consequente desmantelamento do império francês afetam profundamente a Europa e o mundo por mais de um século. A imediata revogação do Bloqueio Continental tira a Inglaterra do sufoco, sua ampla hegemonia industrial inundará a Europa e o mundo com suas mercadorias, sua liberdade de mercado sufocará a indústria nacional estrangeira, dificultará ao máximo a industrialização das demais nações europeias. O retorno ao absolutismo sacramentado no Congresso de Viena, 1815, é o estertor das velhas monarquias e resquícios feudais. Mas, porque agonizava, a velha ordem absolutista redobra sua ferocidade contra os movimentos nacionalistas, liberais e socialistas da Europa com repercussões na América. Itália e Alemanha só se unificarão em 1871. Adotarão regimes autoritários (Bismarck, Guilherme II, Hitler, na Alemanha; Cavour, Vitor Emanuel, Mussolini, na Itália) a fim de, via atalho autoritário, algo keynesiano, conseguir em menos tempo, sua revolução científico-tecnológica, industrial, e conseguir as colônias e mercados que permitiriam às suas burguesias disputar com a Inglaterra e EUA a liderança econômica mundial, as duas monstruosas guerras mundiais na primeira metade do séc. XX é catastrófica decorrência dessa enorme contradição. Os imigrantes são expulsos da Europa – Itália, Alemanha, Polônia, Império Austro-Húngaro – pela falta de reforma agrária, pela não industrialização, pela não unificação, pelo absolutismo político, pelo consequente atraso científico-tecnológico. Em resumo, estes países careciam de fazer a revolução iluminista, sua revolução industrial, sua revolução burguesa, sua revolução socialista, urgentemente, dramaticamente, simultaneamente.” (Fonte: Cassol, Ernesto. A Cultura e a Religiosidade dos Imigrantes. In Revista do IHGGV, nº2, 2005. P65).
Dois séculos após, é bem possível presumir: sem Waterloo Anglo-Prussiano, o mundo seria mais justo e mais avançado nas instituições humanas, a um custo bem menor.